terça-feira, 6 de outubro de 2015

trágicas notícias,

estas, da morte de Chantal Akerman.




Je, tu, il, elle (1976), de Chantal Akerman. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

touching images



Embracing ("Ni tsutsumarete", 1992), Naomi Kawase.

modern criticism

 Not only have the words “organized” and “activity,” occurring together in this phrase, that familiar vague suggestion of the scientific vocabulary which is characteristic of modern writing, but one asked questions which Coleridge and Arnold would not have permitted one to ask. (...) And if a phrase like “ [poetry is] the most highly organized form of intellectual activity” is the highest organization of thought of which contemporary criticism, in a distinguished representative, is capable, then, we conclude, modern criticism is degenerate.

The Sacred Wood, essays on poetry and criticism (1921), "The Perfect Critic", T.S.Eliot. 

sobre o belo

Escrevia boa poesia, uma poesia de certo modo clássica, uma vez que, nos seus poemas, a verdade e a beleza não eram entidades irreconciliáveis, do mesmo modo que o sentido não era apenas uma questão de linguagem. 

A Minha Luta: 2, Karl Ove Knausgård

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Sobre Rousseau, P. Burgelin  disse melhor: ele continua a ser um profeta do mundo contemporâneo porque foi o único a fazer o problema da ordem social provir das exigências de autenticidade existencial, e a vincular a sua própria salvação à salvação do Estado. Somente no final de uma longa agonia, e quando se julgar abandonado por todos, é que Rousseau tentará salvar-se sozinho. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Na era moderna a divisão entre a arte e o mundo era quase absoluta, ou, dito de outro modo, a arte era um mundo à parte. O que se levava em conta neste mundo era obviamente uma questão de gosto pessoal, e esse gosto rapidamente se tornou o próprio cerne da arte, que assim podia e de certo modo tinha de o fazer para sobreviver, admitir objectos do mundo real, e a situação a que chegámos agora foi a de que a arte já não tem nenhuma importância, e toda a ênfase é colocada no que a arte exprime, ou seja, não no que é, mas no que pensa, nas ideias que carrega, de tal maneira que os últimos resquícios de objectividade, os últimos resquícios de algo exterior ao mundo humano foram abandonados. A arte acabou por se tornar uma cama por fazer, um par de fotocopiadoras numa sala, uma mota num sótão. E a arte tornou-se espectadora de si mesma, do modo como reage, do que os jornais escrevem sobre si, e o artista é um executante. É assim que as coisas são. A arte não conhece nada além de si, a ciência também não, nem a religião. O nosso mundo está encerrado em si mesmo, encerrado em nós, e não há como escapar dele. Aqueles que nestas circunstâncias exigem mais profundidade intelectual, mais espiritualidade, não perceberam nada, porque o problema é que o intelecto se apoderou de tudo. Tudo se tornou intelecto, até o nosso corpo já não é um corpo, mas uma ideia de corpo, algo que se localiza no paraíso das imagens e conceitos dentro e acima de nós, onde uma parte cada vez maior da nossa vida é vivida. Os limites daquilo que não nos diz nada - o insondável - já não existem. Compreendemos tudo, e assim é porque transformámos tudo em nós mesmos. Como seria de esperar, hoje em dia todos aqueles que se ocuparam do neutro, do negativo e do não-humano na arte se viraram para a linguagem, é aí que a estranheza e o incompreensível têm sido procurados, como se devessem ser encontrados nas margens da expressão humana, ou seja, na periferia da nossa compreensão, e é claro que isso tem a sua lógica: onde poderiam ser encontrados num mundo que já não reconhece o que está para além dele? 

É nesta perspectiva que temos de ver o papel estranhamente ambíguo que a morte assumiu. Por um lado, está à nossa volta, somos inundados por notícias de mortes, imagens de mortos; porque a morte, nesse sentido, não tem limites, é maciça, omnipresente, incansável. Mas isso é a morte como ideia, a morte sem corpo, a morte como pensamento e imagem, a morte como um conceito intelectual. Essa morte equivale à palavra "morte", a entidade não corpórea a que nos referimos quando mencionamos o nome de uma pessoa que morreu. Enquanto a pessoa está viva, o nome refere-se ao corpo, ao local onde reside, àquilo que faz; com a morte o nome desliga-se do corpo e permanece entre os vivos, que, quando usam o nome, se referem sempre à pessoa que foi, e nunca à pessoa que é agora, um corpo que jaz a apodrecer num sítio qualquer. Esse aspecto da morte, que pertence ao corpo, é concreto, físico e material, é uma morte que se esconde com tantos cuidados que roça a psicose, e funciona, pois basta ouvirmos o modo como se costumam expressar as pessoas que involuntariamente testemunharam acidentes fatais ou homicídios. Dizem sempre o mesmo - que foi completamente irreal -, embora queiram dizer o contrário. Foi tudo muito real. Mas já não vivemos nessa realidade. Para nós, tudo foi virado de cabeça para baixo, para nós o real é irreal e o irreal é real. E a morte é o último grande além. É por isso que tem de ser ocultada. Porque a morte pode estar além do nome e além da vida, mas não está para além do mundo. 

A Minha Luta: 1, Karl Ove Knausgard.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

"Para o coração a vida é simples: bate enquanto pode."

"O meu epitáfio talvez seja: Aqui jaz um homem que aguentou. E que só no fim soçobrou. (Espero ser enterrado na Suécia para que não se perca a rima dos versos.) Ou talvez melhor: 

           Aqui jaz um homem que nunca se queixou
          uma vida completa foi algo que nunca gozou 
          as suas últimas palavras antes de morrer 
          e de atravessar para o lado de quem já não está a viver 
         foram: Raios, está um frio de rachar 
         será que alguém pode trazer-me um pouco de calor? 

Ou talvez ainda melhor: 

        Aqui jaz um autor 
        um bom homem, bem lá no fundo,
        mas o riso era para ele algo sem valor 
        e não sabia o que era a felicidade 
        teve outrora a boca cheia de verborreia 
        e agora tem-na cheia de areia

       Venham larvas, venham vermes,
       sirvam-se à vontade 
       Comam um olho
       Pouco importa
       Os olhos de nada têm medo. 

Mas se ainda tenho trinta anos pela frente, não se pode partir do princípio de que serei o mesmo. 
Então talvez seja melhor algo assim?

       De todos nós para Ti, Deus, nosso pai, 
       Aí está ele com cabelo e pele e tudo o que cai
      Karl Ove Knausgard está finalmente morto e enterrado 
      há muito que não come o nosso pão amado
      rompeu com os amigos 
      para ficar livre para as suas masturbações e livros 
      masturbava-se e escrevia,  mas não se saiu bem,
      faltava-lhe o estilo e não continuou
     então, comeu um bolo, depois mais um ainda quente
     a seguir uma batata, depois um arenque
     assou um leitão 
      e comeu-o gritando heil!
      Não sou nazi, mas gosto de camisas castanhas
     Mudo o alfabeto e escrevo em runas! 

     Os editores recusaram, o homem começou a passar-se 
     gemeu e soluçou e não conseguia parar
     a sua barriga cresceu, o cinto apertou, 
     nos olhos um véu, na língua um sabor a fel: 
     "Eu só queria escrever o que na cabeça tinha!"

     A gordura bloqueou-lhe o coração e as veias 
     até um dia gritar com dor e sem peias: 
     ajudem-me, ajudem-me o meu coração está a parar
     arranjem-me um dador, não me importo que seja um morto! 
     O médico disse que não, lembro-me do teu livro 
     morrerás como um peixe, como um peixe corroído.
     Sentes a dor, sente-la contigo? 
     O teu coração parou, é o fim, meu amigo! 

Ou talvez, se tiver sorte, algo um pouco menos pessoal:

     Aqui jaz um homem que fumava no leito 
     junto à mulher, que morreu do mesmo jeito.
     Extinta a flama
    estas são apenas cinzas 
    recolhidas na cama.


A Minha Luta: 1, Karl Ove Knausgard.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

JAIME + ANA

No próximo dia 23 de Julho, a milímetro em parceria com a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema apresenta uma sessão dupla António Reis. A exibição dos filmes será em cópias 35mm e terá início, excepcionalmente, às 21h30, no Cinema Passos Manuel.

JAIME (1974), António Reis | 35 min














"While working at Lisbon’s famed Miguel Bombarda sanatorium, psychologist Margarida Cordeiro discovered a series of arresting drawings by the subject of her first film with Reis, a recently deceased former patient and paranoid schizophrenic named Jaime Fernandes. Keeping a deeply respectful yet never tentative distance from the asylum world as a realm of unfathomable mystery, Reis and Cordeiro linger over Fernandes’ remarkably expressive drawings, assembling a profoundly moving and hypnotic portrait of a gifted artist and powerful emblem of Portugal’s virtual imprisonment during the repressive Salazar regime."

ANA (1982), António Reis e Margarida Cordeiro | 115 min














"More than a decade after their first feature, Reis and Cordeiro returned once more to the Trás-os-Montes region, using the breathtaking landscape as the evocative setting for an intergenerational portrait of family as a variation of the poetically non-linear time explored in their earlier film. Ripe with floating symbols of the ancient and modern world, Ana is a meditation on history and human civilization and the infinitesimally small but profound role of the individual within the larger movement of longue durée. The film’s minimal and Rilke-inspired dialogue reveals Reis and Cordeiro’s interest in a deeper, non-verbal mode of communication, not only between generations but also between the land and those passing through it. At the center of the sweeping cycle of life described by Ana is the haunting figure of Cordeiro’s own mother, cast as an aging matriarch whose intimacy with her children, grandchildren and with the windswept landscapes around her is tinged with the melancholy of her imminent, final departure."

terça-feira, 7 de julho de 2015

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Quem quer ver um filme sobre um jogo velho?


Na sequência das celebrações do seu 5º aniversário a milímetro continuará, na próxima semana (quarta-feira, 8 de Julho), com a exibição de um pequeno ciclo dedicado ao realizador romeno Corneliu Porumboiu. Desta vez com "Al Doilea Joc" (The Second Game, 2014), filme ainda sem estreia no circuito comercial português. Apareçam.

- Quem quer ver um filme sobre um jogo velho? - Pergunta o pai ao filho (árbitro e realizador, respectivamente), avisando-o, à partida, de que o filme não terá, certamente, qualquer audiência.