À FLOR DO MAR: O QUE É QUE NÃO ARDEU EM MIM?
Ao som de um adágio bachiano, uma luz após a outra,
quatro no total, apagam-se, até que o ecrã se encerra, na escuridão da noite.
Será esta a cena que encerra À Flor do
Mar (1986), filme ímpar na filmografia de João César Monteiro, mas, mais do
que isso, sustado entre aquilo que Leonor Areal classificaria como as duas
linhas mestras da obra do realizador, as histórias tradicionais de fundo
medieval contrapostas às situadas em tempo real, carregadas de uma postura
satírica capital. À Flor do Mar
situar-se-ia ali, no meio, suspenso. Acrescente-se, porém, que não será
suspenso tão-só quando em causa esteja uma disposição categórica da obra de
César Monteiro. Trata-se, sim, e acima de qualquer outra coisa, de uma
reticência material, de conteúdo: o filme corre (ou antes resvala) suspenso em
todas as suas dimensões, no tempo, espaço e, fundamentalmente, no universo
sensível dos seus personagens, em cuja intimidade não se chega bem a entrar,
sem que se perca, por esse motivo, qualquer intensidade abaladora que nos
acerca a partir daquilo que vai emergindo dos âmagos, em jeito de pormenor.
Comecemos – e acabemos, se quiserem, é quanto basta
– com Laura (Morante). Mulher belíssima, viúva do homem que só pintava aves e
que nunca acabava um quadro, antes os destruía, conhece Robert Jordan, possível
revolucionário-assassino que aparece a Laura num insuflável, perdido e ferido
na costa algarvia, necessitado de refúgio.
Sim, Robert Jordan, um americano como o do Hemingway,
mas de brinco na orelha e sem Maria – Oh,
Maria! Amo-te e agradeço-te. Como se
fosse possível sair-se direitinho de uma novela de Hemingway, acrescenta
Sara que, contrariamente ao que possamos pensar, nunca chega a abandonar as
vestes de Callas ou os versos de Virgílio. E ler-se-á em sair-se direitinho a impossibilidade de uma saída limpa, como um
homem imperturbado, mas, ainda assim, com uma saída, ou tratar-se-á, pelo
contrário, de uma imperiosa inabilitação para qualquer tentativa de evasão.
Dali não se sai: será essa a tragédia. Ou dali não se sai impune, o que não é
bem a mesma coisa. A tragédia deles, os personagens e, quiçá, também a nossa. E
se a interrogação pode conservar-se quanto a alguns personagens de À Flor do Mar e até quanto a nós mesmos,
já que o espelho aparenta ser um objecto tão curioso, não o poderá quanto a
Laura, esse ser que se vagueia conservando a sua angústia e calma sorridente –
para escrever, bebe água – sem carregar nisso qualquer contradição. Para Laura
não há regresso, nem mesmo com uma salvação à
americana. Sabemo-lo no momento do beijo, que num corte brusco não chega a
existir, para dar lugar ao confronto com ela mesma, frente ao espelho, onde
tudo o que estala é Bach e luz, nada de Laura. Um destes dias tenho de arranjar coragem para esgravatar nos escombros.
O que é que não ardeu em mim? Esta é a questão central a que todos os
sobreviventes devem dar resposta.
De forma sublinhada, vive nela a ideia-chave que
atravessa a obra: tudo aquilo a que não regressaremos, mas de que nunca saímos.
O sabor do melão de outrora que já não mais existe. E não saímos de Bach, e não
saímos de Callas, de Dante ou de Hemingway, nem tão pouco de Virgílio, e não saímos
do arrebatamento do amor, aonde não poderemos voltar, contudo. Não saímos de
tudo quanto nos tocou; não regressaremos a tudo quanto nos amou. Essa é a
tragédia, que não é flagelo ou fatalismo, é antes vida e suspensão ou, noutras
palavras, poesia. Certamente o leitor me perdoará esta troca fácil e de
retracção fragosa entre o singular e o plural, entre Laura e nós. Há,
naturalmente, diferenças. A impossibilidade, retratada nos longos planos do
mar, pende Laura à abdicação, que não é mais do que o desespero já passada a
tempestade. Para mais, é Yourcenar, não na tela, mas nas letras, quem nos
relembra de que todos sabemos que as histórias do impossível não são mais do
que efemeridade. Contida nos seus movimentos, perfeitos ainda assim, ou talvez
mesmo porque assim, destina-se em jeito de sentença a viver para gastar a infelicidade que nos (lhe) resta.
Laura vive, mas fá-lo à flor do mar. César Monteiro, o homem que conhecemos como aquele
que percorreu com maior veemência e impiedade o espaço da liberdade no cinema português
não terá aqui fugido à regra. Talvez porque não se tenha limitado a ser
percursor, mas tê-lo-á sido, ele mesmo, livre. Talvez, talvez. De resto, o seu
alter-ego João de Deus, que nos é apresentado logo de seguida em Recordações da Casa Amarela (1989), Comédia de Deus (1995) e As Bodas de Deus (1999) não deixa margem
para dúvidas. Habita no autor-actor um permanente salto de arrojo, uma
necessidade última de levar até às derradeiras consequências aquilo a que se
propôs. Residirá aí a sua liberdade, na absoluta renúncia à continência ou
comedimento, explorando não os limites eles próprios, mas todas as formas -
nunca se escapulindo à irreverência - de os ignorar, quiçá gozar. A Godard, que
disse ser o cinema uma vigarice, responde que até essa vigarice pode ser superada
(Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre
Descalço, 1970). E se a estética e temática de À Flor do Mar situam o filme num lugar arenoso na dialéctica de
Monteiro, a poética do conhecido “objecto puro do desejo” não lhe é
indiferente. Do que vemos em Laura: é aquela resignação que mata e, porém, é
ali onde ela mais ferozmente vive e convida. Nem a abordar a contenção João
César foi contido.
Publiquei este texto em Setembro de 2014 no Jornal Artes Entre as Letras. Deixo-o agora aqui na íntegra. Em boa verdade, talvez nem precisasse ter sido escrito, já que o tinham feito bem melhor anos antes, pelas mãos de Bénard da Costa. Acontece que a vontade falou mais alto, já que se de tantas coisas não chegámos - como se lê no texto - a sair, À Flor do Mar terá certamente sido uma delas. O que me vale é poder regressar. A milímetro exibe o filme de César Monteiro no próximo dia 11 de de Junho, no Cinema Passos Manuel.