terça-feira, 9 de junho de 2015

à flor do mar: o que é que não ardeu em mim?

À FLOR DO MAR: O QUE É QUE NÃO ARDEU EM MIM?

Ao som de um adágio bachiano, uma luz após a outra, quatro no total, apagam-se, até que o ecrã se encerra, na escuridão da noite. Será esta a cena que encerra À Flor do Mar (1986), filme ímpar na filmografia de João César Monteiro, mas, mais do que isso, sustado entre aquilo que Leonor Areal classificaria como as duas linhas mestras da obra do realizador, as histórias tradicionais de fundo medieval contrapostas às situadas em tempo real, carregadas de uma postura satírica capital. À Flor do Mar situar-se-ia ali, no meio, suspenso. Acrescente-se, porém, que não será suspenso tão-só quando em causa esteja uma disposição categórica da obra de César Monteiro. Trata-se, sim, e acima de qualquer outra coisa, de uma reticência material, de conteúdo: o filme corre (ou antes resvala) suspenso em todas as suas dimensões, no tempo, espaço e, fundamentalmente, no universo sensível dos seus personagens, em cuja intimidade não se chega bem a entrar, sem que se perca, por esse motivo, qualquer intensidade abaladora que nos acerca a partir daquilo que vai emergindo dos âmagos, em jeito de pormenor.

Comecemos – e acabemos, se quiserem, é quanto basta – com Laura (Morante). Mulher belíssima, viúva do homem que só pintava aves e que nunca acabava um quadro, antes os destruía, conhece Robert Jordan, possível revolucionário-assassino que aparece a Laura num insuflável, perdido e ferido na costa algarvia, necessitado de refúgio.

Sim, Robert Jordan, um americano como o do Hemingway, mas de brinco na orelha e sem Maria – Oh, Maria! Amo-te e agradeço-te. Como se fosse possível sair-se direitinho de uma novela de Hemingway, acrescenta Sara que, contrariamente ao que possamos pensar, nunca chega a abandonar as vestes de Callas ou os versos de Virgílio. E ler-se-á em sair-se direitinho a impossibilidade de uma saída limpa, como um homem imperturbado, mas, ainda assim, com uma saída, ou tratar-se-á, pelo contrário, de uma imperiosa inabilitação para qualquer tentativa de evasão. Dali não se sai: será essa a tragédia. Ou dali não se sai impune, o que não é bem a mesma coisa. A tragédia deles, os personagens e, quiçá, também a nossa. E se a interrogação pode conservar-se quanto a alguns personagens de À Flor do Mar e até quanto a nós mesmos, já que o espelho aparenta ser um objecto tão curioso, não o poderá quanto a Laura, esse ser que se vagueia conservando a sua angústia e calma sorridente – para escrever, bebe água – sem carregar nisso qualquer contradição. Para Laura não há regresso, nem mesmo com uma salvação à americana. Sabemo-lo no momento do beijo, que num corte brusco não chega a existir, para dar lugar ao confronto com ela mesma, frente ao espelho, onde tudo o que estala é Bach e luz, nada de Laura. Um destes dias tenho de arranjar coragem para esgravatar nos escombros. O que é que não ardeu em mim? Esta é a questão central a que todos os sobreviventes devem dar resposta.

De forma sublinhada, vive nela a ideia-chave que atravessa a obra: tudo aquilo a que não regressaremos, mas de que nunca saímos. O sabor do melão de outrora que já não mais existe. E não saímos de Bach, e não saímos de Callas, de Dante ou de Hemingway, nem tão pouco de Virgílio, e não saímos do arrebatamento do amor, aonde não poderemos voltar, contudo. Não saímos de tudo quanto nos tocou; não regressaremos a tudo quanto nos amou. Essa é a tragédia, que não é flagelo ou fatalismo, é antes vida e suspensão ou, noutras palavras, poesia. Certamente o leitor me perdoará esta troca fácil e de retracção fragosa entre o singular e o plural, entre Laura e nós. Há, naturalmente, diferenças. A impossibilidade, retratada nos longos planos do mar, pende Laura à abdicação, que não é mais do que o desespero já passada a tempestade. Para mais, é Yourcenar, não na tela, mas nas letras, quem nos relembra de que todos sabemos que as histórias do impossível não são mais do que efemeridade. Contida nos seus movimentos, perfeitos ainda assim, ou talvez mesmo porque assim, destina-se em jeito de sentença a viver para gastar a infelicidade que nos (lhe) resta. 

Laura vive, mas fá-lo à flor do mar. César Monteiro, o homem que conhecemos como aquele que percorreu com maior veemência e impiedade o espaço da liberdade no cinema português não terá aqui fugido à regra. Talvez porque não se tenha limitado a ser percursor, mas tê-lo-á sido, ele mesmo, livre. Talvez, talvez. De resto, o seu alter-ego João de Deus, que nos é apresentado logo de seguida em Recordações da Casa Amarela (1989), Comédia de Deus (1995) e As Bodas de Deus (1999) não deixa margem para dúvidas. Habita no autor-actor um permanente salto de arrojo, uma necessidade última de levar até às derradeiras consequências aquilo a que se propôs. Residirá aí a sua liberdade, na absoluta renúncia à continência ou comedimento, explorando não os limites eles próprios, mas todas as formas - nunca se escapulindo à irreverência - de os ignorar, quiçá gozar. A Godard, que disse ser o cinema uma vigarice, responde que até essa vigarice pode ser superada (Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, 1970). E se a estética e temática de À Flor do Mar situam o filme num lugar arenoso na dialéctica de Monteiro, a poética do conhecido “objecto puro do desejo” não lhe é indiferente. Do que vemos em Laura: é aquela resignação que mata e, porém, é ali onde ela mais ferozmente vive e convida. Nem a abordar a contenção João César foi contido. 












Publiquei este texto em Setembro de 2014 no Jornal Artes Entre as Letras. Deixo-o agora aqui na íntegra. Em boa verdade, talvez nem precisasse ter sido escrito, já que o tinham feito bem melhor anos antes, pelas mãos de Bénard da Costa. Acontece que a vontade falou mais alto, já que se de tantas coisas não chegámos - como se lê no texto - a sair, À Flor do Mar terá certamente sido uma delas. O que me vale é poder regressar. A milímetro exibe o filme de César Monteiro no próximo dia 11 de de Junho, no Cinema Passos Manuel. 

The Hart of London


































The Hart of London (1970), de Jack Chambers.


(...)When making Hart of London, Chambers was probably convinced that the illusory nature ofthe photograph is its primary attribute, that a photograph - like memory - triumphs over time only by rendering its model unreal. We surround ourselves with images to hang on to what we love, but in doing so we accumulate only the ghostly traces of a bygone world. 

The theme of the destruction of natural beauty that occurs when things of beauty are turned into art objects is reworked in the scenes of women picking flowers to wear boutonnières. The following scenes, of birds trapped in their cages like the spirit in the flesh, like the real in the illusory, like the transient objects of nature in the eternal time of the photograph, offer additional articulations of the same concept. The fundamental destructiveness of human beings, nature and the process of making art (and perhaps even of the process of forming memories) is seggested by the following images of corpses lying in rows. 
(...)
Hart of London is a film concerned with the activity of creation and with the processs by which identity is constituted. It establishes that the means by which a person's identity is forged has its roots in imagery, in images of self, of nature and of community, or, more precisely, of self-and-community-and-nature, for it shows that self, community and nature are indissolubly linked. But it is, in addition, a film based on a profound understanding of various types of mental imagery and their natures. The film's interest in memory arises from Chambers' concern with the stable image upon which a stable sense of identity is grounded. 


Image and Identity: Reflections on Canadian Film and Culture, por Bruce Elder. 


Tudo a propósito de uma retrospectiva integral da obra de Jack Chambers pela Revista Lumière, que não pode passar despercebida (ambas, retrospectiva e revista), em parceria com o Crater-Lab, ali

segunda-feira, 1 de junho de 2015

do pecado na confusão

"(...)No campo das emoções, la grande passion revela-se tão destruidora daquilo que é «socialmente aceitável», tão desdenhosa em relação ao que geralmente se considera «digno do nosso respeito», como os proscritos e desertores o eram em relação à sociedade civilizada de onde vinham. Mas a vida vive-se em sociedade, e o amor, por conseguinte - não falo, é claro, do amor romântico que prepara o terreno para a felicidade conjugal - é também destruidor da vida, como sabemos por todos esses pares célebres de amantes cujas histórias acabaram mal. Fugir à sociedade - uma tal fuga não daria direito, além da paixão, a uma vida apaixonada? (...)

Ou prestar-se-ia? Tanto quanto sei, ela nunca escreveu uma história sobre o episódio, mas escreveu alguns contos acerca do que deverá ter sido para ela a lição óbvia dos desvarios da sua juventude, ou seja, acerca do «pecado» de fazer com que uma história se tornasse realidade, de intervir na vida obedecendo a um esquema preconcebido, em vez de esperar pacientemente que a história viesse à luz do dia, acerca da distinção entre repetir na imaginação e criar uma ficção para em seguida tentar viver de acordo com ela. (...)

Assim, a primeira  parte da sua vida ensinara-lhe que embora se possam contar histórias ou escrever poemas sobre a vida, não se pode tornar a vida poética, vivê-la como se de uma obra de arte se tratasse (como Goethe fizera) nem usá-la para a realização de uma «ideia». A vida pode conter a «essência» (que outra coisa poderia contê-la?); a memória, a repetição imaginária, pode decifrar a essência e oferecer-nos o «elixir»; e poderemos até ter o privilégio de «fazer» dele alguma coisa, de «compor a história». Mas a vida em si não é essência nem elixir, e se a tratarmos como tal limitar-se-á a pregar-nos partidas. Talvez tenha sido a experiência amarga das partidas da vida que a preparou (relativamente tarde, pois já passava dos trinta quando conheceu Finch-Hatton) para a grande passion que na verdade é tão rara como uma obra-prima. Em todo o caso, foi o contar de histórias que finalmente a tornou sábia - e não, diga-se de passagem, uma «feiticeira», uma «sereia» ou uma «sibila», como pensava o seu círculo de admiradores. A sabedoria é uma virtude própria da velhice, e parece ser privilégio daqueles que em jovens não foram nem sábios nem prudentes."

Hannah Arendt, sobre Isak Dinesen, Homens Em Tempos Sombrios

Um texto onde se regressa para recordar precisamente da distinção entre ficção e vida, «pecado» que o jovem cinéfilo - ou o jovem, em geral - tanto tende a cometer. 

domingo, 17 de maio de 2015

a não esquecer


 Depois, depois do Rappaport e de From the Journals of Jean Seberg, lembrei-me de que antes, sobre ela, ainda houve este. Les hautes solitudes (1974), de Philippe Garrel. 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

"the flesh with which we think"






















White Epilepsy (2012), de Philippe Grandrieux.


What do we seek, since the first traces of hands impressed in rock the long, hallucinated perambulation of men across time, what do we try to reach so feverishly, with such obstinacy and suffering, through representation, through images, if not to open the body’s night, its opaque mass, the flesh with which we think – and present it to the light, to our faces, the enigma of our lives.

Philippe Grandrieux, ‘Sur l'horizon insensé du cinéma’, Cahiers du cinéma hors série: Le siècle du cinema, Nov., 2000. Traduzido ali

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Mark Rappaport and the fictional autobiography


The Vanity Tables of Douglas Sirk (2015), de Mark Rappaport.

Rappaport este da descoberta da “fictional autobiography”, sobre o que se pode ler ali, numa entrevista de Rosenbaum a Rappaport, a propósito de From the Journals of Jean Seberg (1995), intitulada de "The Seberg We Missed: Interview with Mark Rappaport", em 1996. A curta "The Vanity Tables..." abre a extensão do IndieLisboa International Film Festival no Porto, organizada pela milímetro.


From the Journals of Jean Seberg (1995), de Mark Rappaport.

"(...) Cineaste: One potential danger of this type of film is that it could be mistaken for a documentary. So one could theoretically come away front From the Journals of Jean Seberg thinking, “I know who Jean Seberg was,” as opposed to “I know what happened to Jean Seberg,” which is something else entirely.
Rappaport: Well, I certainly don’t pretend to know who Jean Seberg was, and, in a sense, I’m really not interested in that aspect of it. People say to me, “But, you know, I still don’t understand why she did what she did.” Which is totally irrelevant. I mean, I’m not interested in her psychology. Psychology is pretty much a boondoggle — very often a way of trying to explain the unexplainable. It’s ‘Jean Seberg’ the construct, who is the sum of all of her movies, that’s interesting to me. It’s the persona that’s recreated through artificially created images that I find fascinating. I didn’t know her and I’m not really that interested in the day to day existence of her life and what she may have thought, what she ate, whom she slept with. I’m interested in what she left behind — her films and what is projected in those films.
In addition, I’m not responsible for what people come away with from movies and least of all my movie. This is not a cradle to grave biography, this is not a standard PBS biography, nor does it pretend to be. It’s very clearly a dissection of images of her as they are presented on the screen. I recently saw a bio of Nico [Nico Icon - ed.] and all the interviewees want to do is talk about how empty she was, how boring she was, how she was not able to love anyone, and so on. I would hate to have my life defined by people who didn’t know me very well or didn’t have the words to describe me the way I would have described myself. It does become a problem of language. And perception. And psychobabble. The message to be learned from those kinds of bios is that you should never die, and, if you have the bad fortune to die, just make sure that no one makes a documentary about the ‘real’ you — whoever that is!
What does a biography really tell you? It’s a very limited perspective of what the biographer has researched, how well they’re able to put it together, what they leave out, what they put in, their ability to describe what they put in, the order that they put it in. It’s all incredibly colored by the writer. And autobiography is the ultimate lie. How much truth can the person writing tell about his or her life, really? They’re retelling a life from a very limited perspective. I’m not saying that mine is less limited but it’s more social/cultural/political. There is a certain kind of authenticity in the clips themselves. I didn’t write or direct or light or edit those movies. I’m using them as primary documents. (...)"

sexta-feira, 1 de maio de 2015

o sétimo selo




O Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman. 

"(...)My intention has been to paint in the same way as the medieval church painter, with the same objective interest, with the same tenderness and joy. My beings laugh, weep, howl, fear, speak, answer, play, suffer, ask, ask. Their terror is the plague, Judgment Day, the star whose name is Wormwood. Our fear is of another kind but our words are the same."


[On The Seventh Seal], texto de apresentação por Ingmar Bergman, reprinted in 'Focus on the Seventh Seal', edited by Birgitta Steene. 

O Cerco (ii)




O CERCO

"O Cerco" (1970), de António da Cunha Telles, no Cinema Passos Manuel, a 7 de Maio, pela milímetro. Este não se perde, desde logo porque, contrariamente ao que deveria, é de aparição rara. 

"(...)Ultimately, these two narratives manifest political circumstances that generate the social entrapment of the female, expressed in the castration and perversion of their desire and freedom. In so many ways, in the manner it reflects their female tragedies, pre-revolution cinema and post-revolution cinema mirror unexpected similar endeavours."