(...)Manoel de Oliveira faz parte, no contexto português, da pequena minoria de cineastas católicos (os outros são Paulo Rocha e, numa escala bem mais modesta, o autor destas linhas) para quem o acto de filmar implica a consciência de uma transgressão. Filmar é uma violência do olhar, uma profanação do real que tem por objectivo a restituição de uma imagem do sagrado, no sentido que Roger Caillois dá à palavra. Ora, essa imagem só pode ser traduzida em termos de arte, no que isso pressupõe de criação profundamente lúdica e profundamente ligada a um carácter religioso e primitivo.
(...) as episódicas consagrações por dever de ofício consagrador, este aristocrata que, muito saudavelmente, teima em de divertir como um doido à nossa custa regresse em breve ao torrão natal mais esquecido e incompreendido que nunca. O problema, de resto, é só este: o país tem (inexplicavelmente) um cineasta demasiado grande para o tamanho que tem. Portanto, das duas uma: ou alargam o território ou encurtam o cineasta. Como nos tempos que correm é difícil alargar um território, sugiro que se apequene o cineasta, cortando-o às fatias e servindo-o frio ao público do Grande Auditório da Fundação Gulbenkian.
Resta dizer que, como todos os grandes revolucionários filmes, também este tem o condão de desmascarar os imbecis e de propor uma lição de modernidade cinematográfica para quem a quiser e puder entender.
João César Monteiro, O Passado e o Presente. Um necrofilme português de Manoel de Oliveira, in Diário de Lisboa - Suplemento literário, 10 de Março de 1972.




