Happiness is a warm gun, do álbum "Saints" (2001), de Marc Ribot.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
happiness is a warm gun, they said
Happiness is a warm gun, do álbum "Saints" (2001), de Marc Ribot.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
da contemporaneidade
My century, my beast, who will manage
to look inside your eyes
and weld together with his own blood
the vertebrae of two centuries? (...)
do poema The Century, de Osip Mandelstam.
to look inside your eyes
and weld together with his own blood
the vertebrae of two centuries? (...)
do poema The Century, de Osip Mandelstam.
a patently impure fellow
(...) In his inaugural lecture at the Collège de France in 1977, speaking therefore as someone at the recognisable apex of an academic career in his country, he describes himself as ‘un sujet incertain’: in Richard Howard’s translation, ‘a fellow of doubtful nature, whose every attribute is somehow challenged by its opposite’. He goes on to say he has had a university career without the degrees that would normally be required for such a trajectory; that he wanted to work within the fields of literary, lexicological and sociological science but only ever wrote essays, ‘an ambiguous genre in which analysis vies with writing’. And although he was involved from the early days in the development of semiotics, he has little right to represent that discipline, he says, because he was so much inclined to ‘shift its definition’, and to work in the ambit of Tel Quel rather than more academic journals. An impure subject, he finally calls himself, ‘a patently impure fellow’. And then he says something that instantly reveals why it is such a pleasure to read him, and why all these reservations and ambiguities are such unmistakable virtues. For all these reasons, he says, he is not going to linger over the honour of being made a professor at the Collège de France and will concentrate on his joy at the occasion, ‘for an honour can be undeserved, joy never is’. You have only to read a sentence like that to know you have found a friend. And you understand the notion of joy better than you did a moment ago.
Or take a sentence like this one, from Barthes’s first book. He is not talking about a writer or a text or a style or an image or a story, but about … a tense. This is the preterite, the past historic, which in French exists only in written texts. It is, Barthes says,
the ideal instrument for every construction of a world; it is the unreal tense of cosmogonies, myths, history and novels. It presupposes a world which is constructed, elaborated, self-sufficient, reduced to significant lines, and not one which has been sent sprawling before us, for us to take or leave (jeté, étalé, offert). Behind the preterite there always lurks a demiurge, a God or a reciter. The world is not unexplained since it is told like a story; each one of its accidents is merely a circumstance, and the preterite is precisely this operative sign whereby the narrator reduces the exploded reality to a slim and pure verb without density, without volume, without spread. (...)
Michael Wood, "Presence of Mind", sobre Carnets du voyage en Chine, de Roland Barthes, ali.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Jacques conduz o seu amo, porque assim estava escrito lá em cima
Jacques - Jacques conduz o seu amo. Seremos os primeiros de quem o dirão, mas hão-de repeti-lo acerca de mil outros que valem mais que vós e que eu.
O Amo - Isso parece-me duro, muito duro.
Jacques - Meu amo, meu caro amo, ides recalcitrar contra um aguilhão que picará ainda mais. Eis então o que está acordado entre nós.
O Amo - E que acrescenta o nosso consentimento a uma lei necessária?
Jacques - Muito. Julgais que é inútil conhecer-se de uma vez por todas, nitidamente, claramente, aquilo com que se deve contar? Todas as nossas querelas apenas aconteceram até hoje porque ainda não tínhamos dito bem um ao outro que vós vos chamaríeis meu amo e que eu é que seria o vosso. Mas agora está entendido e não temos outra coisa a fazer que andar em frente com a consequência.
Jacques o Fatalista e o Seu Amo, Denis Diderot.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
do que estava escrito lá em cima
Imaginais, leitor, até aonde eu poderia levar esta conversa sobre um assunto de que tanto se tem falado, de que tanto se tem escrito desde há dois mil anos, sem por isso se ter avançado um passo. Se pouco me estais grato pelo que vos digo, muito me agradecei o que vos não digo.
Jacques o Fatalista e o Seu Amo, Denis Diderot.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
da dupla verdade das imagens
Obsessão (Ossessione, 1943), de Luchino Visconti.
E depois ainda há aquela cena, em que Gino perde a luta quase ganha, para que o plano (um deles? o mesmo? ai...) se conclua num beijo.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
o cristo cigano
O destino eram
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
- Tu esculpirás Seu rosto
de morte e agonia.
in O Cristo Cigano, de Sophia de Mello Breyner Andressen
Ao que se acrescenta:
- Tu matarás.
E matou, com a mesma faca que ainda hoje atravessa a história.
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
- Tu esculpirás Seu rosto
de morte e agonia.
in O Cristo Cigano, de Sophia de Mello Breyner Andressen
Ao que se acrescenta:
- Tu matarás.
E matou, com a mesma faca que ainda hoje atravessa a história.
há muitas maneiras de matar
Mas eis que a imagem do sofrimento nasce das suas próprias mãos em frente do homem que ele próprio matou. Porque se virarmos a cara ao sofrimento, a vaidade da felicidade perfeita nos levará à monstruosidade e ao crime. Há muitas maneiras de matar. É no sofrimento que o escultor vê aparecer a imagem que ele procurara em vão na manhã e nos campos. A imagem que, para além de todo o erro e pecado, está inscrita na pessoa humana.
disse-o Sophia, a propósito d' O Cristo Cigano.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
ainda da pornografia
Concluiu desejando felicidade. Disse algo do género:
- Minhas senhoras, meus senhores, os noivos merecem felicidade; logo, serão felizes.
O que significava:
«Falo por falar.»
in Pornografia, de Witold Gombrowicz
"Nada, a não ser a minha pornografia que deles se alimentava!"
Repito: tudo isso se passou numa questão de segundos. E, na verdade, nada se passou, porque nós estávamos ali pura e simplesmente especados. Apontando com o dedo para as calças de Karol, um pouco compridas de mais e a roçar a terra, Fryderyk disse:
- É preciso dobrar as pernas das calças dele.
- É verdade - concordou Karol, inclinando-se.
- Espere, espere um instante - avançou Fryderyk.
Via-se que não lhe era fácil exprimir o que queria dizer. Colocou-se de lado para eles, olhando em frente, e com voz rouca mas muito clara sugeriu:
- Não, espere! Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
E repetiu:
- Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
Era indecente. Era como se estivesse a assediá-los. Era como confessar o seu desejo de que eles se excitassem: façam-no, que assim vão agradar-me; este é o meu desejo...
Ele estava a iniciá-los na esfera do nosso desejo, daquilo com que nós sonhávamos para eles. Por um segundo, o silêncio deles revoluteou e, por um segundo, aguardei o resultado do descaramento de Fryderyk. O que a seguir se passou foi simples, dócil e fácil, tão «fácil» que quase fiquei com vertigens, como se um abismo se tivesse silenciosamente aberto a meus pés.
Ela não disse nada. Apenas se agachou e fez-lhe uma dobra nas pernas das calças. Ele, por sua vez, nem se mexeu. O silêncio dos seus corpos era absoluto.
in Pornografia, de Witold Gombrowicz
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