quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
da dupla verdade das imagens
Obsessão (Ossessione, 1943), de Luchino Visconti.
E depois ainda há aquela cena, em que Gino perde a luta quase ganha, para que o plano (um deles? o mesmo? ai...) se conclua num beijo.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
o cristo cigano
O destino eram
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
- Tu esculpirás Seu rosto
de morte e agonia.
in O Cristo Cigano, de Sophia de Mello Breyner Andressen
Ao que se acrescenta:
- Tu matarás.
E matou, com a mesma faca que ainda hoje atravessa a história.
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
- Tu esculpirás Seu rosto
de morte e agonia.
in O Cristo Cigano, de Sophia de Mello Breyner Andressen
Ao que se acrescenta:
- Tu matarás.
E matou, com a mesma faca que ainda hoje atravessa a história.
há muitas maneiras de matar
Mas eis que a imagem do sofrimento nasce das suas próprias mãos em frente do homem que ele próprio matou. Porque se virarmos a cara ao sofrimento, a vaidade da felicidade perfeita nos levará à monstruosidade e ao crime. Há muitas maneiras de matar. É no sofrimento que o escultor vê aparecer a imagem que ele procurara em vão na manhã e nos campos. A imagem que, para além de todo o erro e pecado, está inscrita na pessoa humana.
disse-o Sophia, a propósito d' O Cristo Cigano.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
ainda da pornografia
Concluiu desejando felicidade. Disse algo do género:
- Minhas senhoras, meus senhores, os noivos merecem felicidade; logo, serão felizes.
O que significava:
«Falo por falar.»
in Pornografia, de Witold Gombrowicz
"Nada, a não ser a minha pornografia que deles se alimentava!"
Repito: tudo isso se passou numa questão de segundos. E, na verdade, nada se passou, porque nós estávamos ali pura e simplesmente especados. Apontando com o dedo para as calças de Karol, um pouco compridas de mais e a roçar a terra, Fryderyk disse:
- É preciso dobrar as pernas das calças dele.
- É verdade - concordou Karol, inclinando-se.
- Espere, espere um instante - avançou Fryderyk.
Via-se que não lhe era fácil exprimir o que queria dizer. Colocou-se de lado para eles, olhando em frente, e com voz rouca mas muito clara sugeriu:
- Não, espere! Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
E repetiu:
- Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
Era indecente. Era como se estivesse a assediá-los. Era como confessar o seu desejo de que eles se excitassem: façam-no, que assim vão agradar-me; este é o meu desejo...
Ele estava a iniciá-los na esfera do nosso desejo, daquilo com que nós sonhávamos para eles. Por um segundo, o silêncio deles revoluteou e, por um segundo, aguardei o resultado do descaramento de Fryderyk. O que a seguir se passou foi simples, dócil e fácil, tão «fácil» que quase fiquei com vertigens, como se um abismo se tivesse silenciosamente aberto a meus pés.
Ela não disse nada. Apenas se agachou e fez-lhe uma dobra nas pernas das calças. Ele, por sua vez, nem se mexeu. O silêncio dos seus corpos era absoluto.
in Pornografia, de Witold Gombrowicz
The Forest Lake
Nos versos de Edith Södergran, e da inevitável oposição do novo homem, que ascende num impulso vital, à realidade apartada de quem o cria.
I was alone on a sunny shore
by the forest’s pale blue lake,
in the sky floated a single cloud
and on the water a single island.
Ripe summer’s sweetness dripped
in pearls from every tree
and into my opened heart
a little drop ran down.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
domingo, 30 de novembro de 2014
about Mark Strand
We have done what we wanted.
We have discarded dreams, preferring the heavy industry
of each other, and we have welcomed grief
and called ruin the impossible habit to break.
And now we are here.
The dinner is ready and we cannot eat.
The meat sits in the white lake of its dish.
The wine waits.
Coming to this
has its rewards: nothing is promised, nothing is taken away.
We have no heart or saving grace,
no place to go, no reason to remain.
We have discarded dreams, preferring the heavy industry
of each other, and we have welcomed grief
and called ruin the impossible habit to break.
And now we are here.
The dinner is ready and we cannot eat.
The meat sits in the white lake of its dish.
The wine waits.
Coming to this
has its rewards: nothing is promised, nothing is taken away.
We have no heart or saving grace,
no place to go, no reason to remain.
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