Repito: tudo isso se passou numa questão de segundos. E, na verdade, nada se passou, porque nós estávamos ali pura e simplesmente especados. Apontando com o dedo para as calças de Karol, um pouco compridas de mais e a roçar a terra, Fryderyk disse:
- É preciso dobrar as pernas das calças dele.
- É verdade - concordou Karol, inclinando-se.
- Espere, espere um instante - avançou Fryderyk.
Via-se que não lhe era fácil exprimir o que queria dizer. Colocou-se de lado para eles, olhando em frente, e com voz rouca mas muito clara sugeriu:
- Não, espere! Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
E repetiu:
- Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
Era indecente. Era como se estivesse a assediá-los. Era como confessar o seu desejo de que eles se excitassem: façam-no, que assim vão agradar-me; este é o meu desejo...
Ele estava a iniciá-los na esfera do nosso desejo, daquilo com que nós sonhávamos para eles. Por um segundo, o silêncio deles revoluteou e, por um segundo, aguardei o resultado do descaramento de Fryderyk. O que a seguir se passou foi simples, dócil e fácil, tão «fácil» que quase fiquei com vertigens, como se um abismo se tivesse silenciosamente aberto a meus pés.
Ela não disse nada. Apenas se agachou e fez-lhe uma dobra nas pernas das calças. Ele, por sua vez, nem se mexeu. O silêncio dos seus corpos era absoluto.
in Pornografia, de Witold Gombrowicz