segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

há muitas maneiras de matar

Mas eis que a imagem do sofrimento nasce das suas próprias mãos em frente do homem que ele próprio matou. Porque se virarmos a cara ao sofrimento, a vaidade da felicidade perfeita nos levará à monstruosidade e ao crime. Há muitas maneiras de matar. É no sofrimento que o escultor vê aparecer a imagem que ele procurara em vão na manhã e nos campos. A imagem que, para além de todo o erro e pecado, está inscrita na pessoa humana. 

disse-o Sophia, a propósito d' O Cristo Cigano. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ainda da pornografia

Concluiu desejando felicidade. Disse algo do género:
    - Minhas senhoras, meus senhores, os noivos merecem felicidade; logo, serão felizes. 
O que significava:
«Falo por falar.»

in Pornografia, de Witold Gombrowicz

"Nada, a não ser a minha pornografia que deles se alimentava!"

Repito: tudo isso se passou numa questão de segundos. E, na verdade, nada se passou, porque nós estávamos ali pura e simplesmente especados. Apontando com o dedo para as calças de Karol, um pouco compridas de mais e a roçar a terra, Fryderyk disse:
    - É preciso dobrar as pernas das calças dele.
    - É verdade - concordou Karol, inclinando-se.
    - Espere, espere um instante - avançou Fryderyk. 
Via-se que não lhe era fácil exprimir o que queria dizer. Colocou-se de lado para eles, olhando em frente, e com voz rouca mas muito clara sugeriu:
    - Não, espere! Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
E repetiu:
    - Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
Era indecente. Era como se estivesse a assediá-los. Era como confessar o seu desejo de que eles se excitassem: façam-no, que assim vão agradar-me; este é o meu desejo...
Ele estava a iniciá-los na esfera do nosso desejo, daquilo com que nós sonhávamos para eles. Por um segundo, o silêncio deles revoluteou e, por um segundo, aguardei o resultado do descaramento de Fryderyk. O que a seguir se passou foi simples, dócil e fácil, tão «fácil» que quase fiquei com vertigens, como se um abismo se tivesse silenciosamente aberto a meus pés. 
Ela não disse nada. Apenas se agachou e fez-lhe uma dobra nas pernas das calças. Ele, por sua vez, nem se mexeu. O silêncio dos seus corpos era absoluto. 

in Pornografia, de Witold Gombrowicz

The Forest Lake

Nos versos de Edith Södergran, e da inevitável oposição do novo homem, que ascende num impulso vital, à realidade apartada de quem o cria. 

I was alone on a sunny shore
by the forest’s pale blue lake,
in the sky floated a single cloud
and on the water a single island.
Ripe summer’s sweetness dripped
in pearls from every tree
and into my opened heart
a little drop ran down.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

domingo, 30 de novembro de 2014

about Mark Strand

We have done what we wanted.
We have discarded dreams, preferring the heavy industry 
of each other, and we have welcomed grief
and called ruin the impossible habit to break.

And now we are here.
The dinner is ready and we cannot eat. 
The meat sits in the white lake of its dish. 
The wine waits.

Coming to this
has its rewards: nothing is promised, nothing is taken away. 
We have no heart or saving grace,
no place to go, no reason to remain. 

domingo, 2 de novembro de 2014

diziam-me que a poesia de cummings era uma questão de exaltação

I will wade out
                        till my thighs are steeped in burning flowers
I will take the sun in my mouth
and leap into the ripe air
                                       Alive
                                                 with closed eyes
to dash against darkness
                                       in the sleeping curves of my body
Shall enter fingers of smooth mastery
with chasteness of sea-girls
                                            Will i complete the mystery
                                            of my flesh
I will rise
               After a thousand years
lipping
flowers
             And set my teeth in the silver of the moon