Não ficara mais sábio com a
idade. (E fica-se? – pergunto). Apenas sabia mais coisas. Porém, nos momentos
decisivos elas pareciam de nada lhe valer. Importavam a dor e a felicidade. O
que sofria e o que amava. O bem e o mal. O bom e o mau. No fundo, era ainda
como uma criança, de extremos emocionais dramáticos, onde seguido a um choro
por clemência facilmente desabrochava um trágico entusiasmo pela vida.
quarta-feira, 23 de julho de 2014
quinta-feira, 17 de julho de 2014
da lua (ii)
Os Amantes Crucificados (1954), de Kenji Mizoguchi
"Durante a fuga, há uma extraordinária cena de amor num lago. Mizoguchi, a propósito dela, pegou-se com o argumentista, o grande Yoda Yoshikata que lhe escreveu quase todos os filmes. Acusava a cena de não ter intensidade dramática. Quando Yoda, desiludíssimo, pois, na opinião dele, jamais fizera melhor trabalho, lhe perguntou o que queria dizer com isso, Mizoguchi respondeu: “Olha, vê, por exemplo a cena em que os amantes fazem amor no barco, depois de terem decidido suicidar-se. É idiota e ridícula. Se querem matar-se, é inimaginável que pensem em fazer amor. Metem-se no barco pensando apenas na morte. Tanto basta para mostrar o estado de alma deles naquela altura. Chegam ao meio do lago. E, subitamente, deixam de querer morrer. Não porque tenham medo da morte. Mas porque, ao contrário dos melodramas em que breves momentos roubados à morte são os mais doces da vida, o valor da existência dos momentos futuros - por poucos e breves que venham a ser - extinguiu a tentação da morte, constituiu a única e verdadeira abertura. Não podemos morrer assim, é isso que os amantes devem pensar. É isso que é verdadeiramente trágico.”
Esta passagem esclarece o famoso sentido da elipse na obra de Mizoguchi e o que, através dela, o realizador queria alcançar e alcançou. Tudo cabe em momentos, onde tudo se revela e tudo se abre, iluminando passado e futuro, quaisquer que sejam."
O texto é de Bénard da Costa, ali.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Durante vinte minutos brinquei com ela, dispondo-a segundo a minha fantasia, apalpando, manejando esse corpo sem membros de paralítico total. Nada é tão morto como uma serpente morta. Aquele farrapo depressa perdeu todo o seu prestígio, todo o seu metal. Obstinava-se em mostrar-me aquela cor do ventre, demasiadamente clara, que todos os animais dissimulam até à morte - ou até ao amor.
De Víbora na Mão, de Hervé Bazin.
domingo, 22 de junho de 2014
e ainda a capa
Medeski Martin & Wood, Is There Anybody That Loves My Jesus, do álbum Shack-man (1996).
Enquanto se espera pelo Juice.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
O Malparado
Dizia-o no Malparado: É sempre assim: uma idealização que se faz na imagem e se desfaz na linguagem. Acordando, terminei a perguntar-me: mas o que é sempre assim, Rita? Quando a idealização se desfaz, desfaz-se sempre na linguagem ou será o verbo desfazer o objecto central da questão? A idealização que sempre se cria e que sempre se desfaz. Assim. Inclinei-me para a segunda.
domingo, 1 de junho de 2014
quinta-feira, 22 de maio de 2014
só no cinema
"Germering, estalagem, as crianças festejam a primeira comunhão; uma banda de sopros, a empregada traz bolos na bandeja que os clientes sentados na mesa comum tentam tirar à socapa. Estradas romanas, fortes célticos, a imaginação trabalha freneticamente. Sábado à tarde, as mães com os filhos. Como são as brincadeiras das crianças? Não como os filmes as mostram. Seria preciso um par de binóculos.
Tudo isto é muito novo, um novo pedaço de vida. Ainda há pouco estava numa passagem aérea, por baixo de mim: um troço e auto-estrada para Augsburg. Do meu carro vejo por vezes as pessoas que se detêm na passagem aérea sobre a auto-estrada e ficam a olhar, agora sou uma delas. A segunda cerveja já começa a descer-me aos joelhos. Um rapaz coloca um cartaz entre duas mesas, fixando as duas pontas com fita-cola. Vai à volta, grita o grupo da mesa comum, por quem se tomam, diz a empregada, depois a música recomeça, muito alta. O grupo gostaria de ver o rapaz a levantar a saia da empregada, mas ele não arrisca.
Só no cinema se poderia tomar tudo isto por verdadeiro."
Werner Herzog, Caminhar no Gelo, Tinta da China, 2011, p. 17.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Instant Light


As polaroids de Andrei Tarkovsky, do livro Instant Light. Porque só descobri isto agora, pergunto-me.
domingo, 11 de maio de 2014
um homem tem duas sombras
Ontem foi dia de Carlos Relvas, o homem que tem duas sombras, no CIAJG. E é-o todo o mês de Maio. E é imperdível, esta autêntica alusão a C. D. Friedrich quando toca à paisagem na fotografia.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
os que vão morrer saudam-te ou de novo da ficcção e do real
O Cinema talvez seja apenas a procura da distância mais justa entre dois olhares - a distância do olhar que nos olha, o que corresponde à distância de nos conhecermos como somos conhecidos.
João César Monteiro
Vai e Vem (2003), de João César Monteiro.
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