quinta-feira, 28 de novembro de 2013

le désir de jouer

En général je choisis des acteurs pour qui jouer est une passion fondamentale, un choix. Qui s'interrogent sur leur désir de jouer.
[Et le masque...]
C'est plus général, c'est le masque que porte chacun dans la vie.

Abdellatif Kechiche, Cahiers du Cinéma, Octobre 2013, nº 693.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

ele é o Homem Eterno

 
"(...)Este anonimato da burguesia torna-se ainda mais espesso quando se passa da cultura burguesa propriamente dita às suas formas alargadas, vulgarizadas, utilizadas, àquilo que se poderia chamar a filosofia pública, que alimenta a moral quotidiana, os cerimoniais civis, os ritos profanos, numa palavra, as normas não escritas da vida de relação na sociedade burguesa. É uma ilusão reduzir a cultura dominante ao seu núcleo inventivo: há também uma cultura burguesa de puro consumo. Toda a França mergulha nesta ideologia anónima: a nossa imprensa, o nosso cinema, o nosso teatro, a nossa literatura de uso geral, os nossos cerimoniais, a nossa justiça, a nossa diplomacia, as nossas conversações, o tempo que faz, o crime que se julga, o casamente em que nos comovemos, a cozinha com que se sonha, o vestuário que se traz, tudo, na nossa vida quotidiana, é tributário da representação que a burguesia tem e nos faz ter das relações do homem com o mundo. Estas formas «normalizadas» atraem pouco as atenções, na proporção mesma da sua extensão; a sua origem pode nelas perder-se à vontade; elas gozam de uma posição intermediária: não sendo nem directamente políticas, nem directamente ideológicas, vivem em paz entre a acção dos militares e o contencioso dos intelectuais; mais ou menos por uns e outros, elas ganham a massa enorme do indiferenciado, do insignificante, em resumo, da natureza. É, todavia, através da sua ética que a França é penetrada pela burguesia: praticadas nacionalmente, as normas burguesas são vividas como as leis evidentes de uma ordem natural: quanto mais a classe burguesa propaga as duas representações, mais elas se naturalizam. O facto burguês absorve-se num universo indistinto, cujo único habitante é o Homem Eterno, nem proletário, nem burguês."
 
Roland Barthes, Mitologias, «O mito, hoje», de Setembro de 1956.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

ao que ele responde: e com a vida?

São 3:41h da manhã e dou por mim a pensar na Monica Vitti, linda de tirar o fôlego, a dizer algo como "what do people expect me to do with my eyes?". E, certamente, não é assim que se consegue adormecer.

And here's a man still working for your smile

 


I tried to leave you, I don't deny
I closed the book on us, at least a hundred times.
I'd wake up every morning by your side.

The years go by, you lose your pride.
The baby's crying, so you do not go outside,
and all your work it's right before your eyes.

Goodnight, my darling, I hope you're satisfied,
the bed is kind of narrow, but my arms are open wide.
And here's a man still working for your smile.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.
 
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, p.73.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

"um caso subterrâneo"

"É um homem que, devido à sua terrível clarividência, sinceridade e incapacidade para se harmonizar com o mundo, se vê condenado ao ascetismo".
 
Agustina disse-o sobre Kafka, em Kafkiana. Pergunto-me, no entanto, se não o poderia ter dito de tantos outros de nós. Ou, se quisermos, se não será exactamente devido à imediata identificação entre aquilo que se pronunciou sobre um homem, aquele, assim que retirado do seu contexto inicial, e aquilo que poderia ser pronunciado sobre tantos outros, que Kafka falou, nada mais, nada menos, de todos nós, das nossas inquietações numa realidade caracterizada pela derradeira e incontornável ausência de um Deus.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

da sociedade dos símbolos abstractos

"(...)Frente a tanta miséria, esta arte, se quer continuar a ser um luxo, terá que aceitar, no dia de hoje, ser também uma mentira.
De facto, de que poderia ela falar? Se se conforma com o que a nossa sociedade, na sua maioria, pede, será divertimento sem alcance. Se cegamente a rejeita, se o artista decide isolar-se no seu sonho, não exprimirá mais do que uma recusa. Teremos, assim, uma produção, ou de graciosos ou de gramáticos da forma, o que, em ambos os casos, dará em resultado uma arte divorciada da realidade viva. Desde há mais ou menos um século que vivemos numa sociedade que nem sequer é a sociedade do dinheiro (a prata ou o oiro podem suscitar paixões carnais), mas a dos símbolos abstractos do dinheiro. A sociedade dos negociantes pode definir-se como uma sociedade na qual as coisas desaparecem em proveito dos signos. Quando uma classe dirigente avalia as suas riquezas, já não pelo hectare de terra nem pelo lingote de oiro mas pelo número de cifras que idealmente correspondem a um certo número de operações de câmbio, dedica-se ao mesmo tempo a pôr uma certa espécie de mistificação como centro da sua experiencia e do seu universo. Uma sociedade fundada nos signos é, na sua essência, uma sociedade artificial em que a realidade carnal do homem se acha mistificada. Ninguém então se admirará de que essa sociedade tenha escolhido, para dela fazer a sua religião, uma moral de princípios formais, e de que grave as palavras liberdade e igualdade tanto nas suas prisões como nos seus templos financeiros. Entretanto, não é impunemente que se prostituem as palavras. O valor hoje mais caluniado é certamente o valor da liberdade. Bons espíritos (sempre pensei que havia duas espécies de inteligência, a inteligência inteligente e a inteligência estúpida) fazem doutrina de ela não ser senão um obstáculo ao verdadeiro progresso. Mas se disparates tão solenes puderam ser proferidos foi porque, durante cem anos, a sociedade negociante fez da liberdade um uso exclusivo e unilateral, considerou-a mais como um direito do que como um dever e não receou pôr, tão frequentemente quanto pôde, uma liberdade de princípio ao serviço de uma opressão de facto. Por conseguinte, que há de surpreendente se essa sociedade não pediu à arte que fosse um instrumento de libertação mas um exercício sem grandes consequências e um simples divertimento?(...)"
 
 
Albert Camus no seu discurso na Conferência «O Artista e O Seu Tempo», na Universidade de Upsala, em 1957.

sábado, 26 de outubro de 2013

se se é novo

"O seu passo miúdo apressa-se: amanhã tudo vai mudar, amanhã. De repente descobre que o amanhã será semelhante, e depois de amanhã, todos o outros dias. E a irremediável descoberta esmaga-o. São ideias como esta que nos fazem morrer. Há quem se mate por não poder suportá-las - ou, se se é novo, fazem-se frases a seu respeito."
 
 
Albert Camus, O Avesso e o Direito, "A Ironia", Edição «Livros do Brasil» Lisboa, p.41.