segunda-feira, 18 de novembro de 2013
ao que ele responde: e com a vida?
São 3:41h da manhã e dou por mim a pensar na Monica Vitti, linda de tirar o fôlego, a dizer algo como "what do people expect me to do with my eyes?". E, certamente, não é assim que se consegue adormecer.
And here's a man still working for your smile
I tried to leave you, I don't deny
I closed the book on us, at least a hundred times.
I'd wake up every morning by your side.
The years go by, you lose your pride.
The baby's crying, so you do not go outside,
and all your work it's right before your eyes.
Goodnight, my darling, I hope you're satisfied,
the bed is kind of narrow, but my arms are open wide.
And here's a man still working for your smile.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
"um caso subterrâneo"
"É um homem que, devido à sua terrível clarividência, sinceridade e incapacidade para se harmonizar com o mundo, se vê condenado ao ascetismo".
Agustina disse-o sobre Kafka, em Kafkiana. Pergunto-me, no entanto, se não o poderia ter dito de tantos outros de nós. Ou, se quisermos, se não será exactamente devido à imediata identificação entre aquilo que se pronunciou sobre um homem, aquele, assim que retirado do seu contexto inicial, e aquilo que poderia ser pronunciado sobre tantos outros, que Kafka falou, nada mais, nada menos, de todos nós, das nossas inquietações numa realidade caracterizada pela derradeira e incontornável ausência de um Deus.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
da sociedade dos símbolos abstractos
"(...)Frente a tanta miséria, esta arte, se quer continuar a ser um luxo, terá que aceitar, no dia de hoje, ser também uma mentira.
De facto, de que poderia ela falar? Se se conforma com o que a nossa sociedade, na sua maioria, pede, será divertimento sem alcance. Se cegamente a rejeita, se o artista decide isolar-se no seu sonho, não exprimirá mais do que uma recusa. Teremos, assim, uma produção, ou de graciosos ou de gramáticos da forma, o que, em ambos os casos, dará em resultado uma arte divorciada da realidade viva. Desde há mais ou menos um século que vivemos numa sociedade que nem sequer é a sociedade do dinheiro (a prata ou o oiro podem suscitar paixões carnais), mas a dos símbolos abstractos do dinheiro. A sociedade dos negociantes pode definir-se como uma sociedade na qual as coisas desaparecem em proveito dos signos. Quando uma classe dirigente avalia as suas riquezas, já não pelo hectare de terra nem pelo lingote de oiro mas pelo número de cifras que idealmente correspondem a um certo número de operações de câmbio, dedica-se ao mesmo tempo a pôr uma certa espécie de mistificação como centro da sua experiencia e do seu universo. Uma sociedade fundada nos signos é, na sua essência, uma sociedade artificial em que a realidade carnal do homem se acha mistificada. Ninguém então se admirará de que essa sociedade tenha escolhido, para dela fazer a sua religião, uma moral de princípios formais, e de que grave as palavras liberdade e igualdade tanto nas suas prisões como nos seus templos financeiros. Entretanto, não é impunemente que se prostituem as palavras. O valor hoje mais caluniado é certamente o valor da liberdade. Bons espíritos (sempre pensei que havia duas espécies de inteligência, a inteligência inteligente e a inteligência estúpida) fazem doutrina de ela não ser senão um obstáculo ao verdadeiro progresso. Mas se disparates tão solenes puderam ser proferidos foi porque, durante cem anos, a sociedade negociante fez da liberdade um uso exclusivo e unilateral, considerou-a mais como um direito do que como um dever e não receou pôr, tão frequentemente quanto pôde, uma liberdade de princípio ao serviço de uma opressão de facto. Por conseguinte, que há de surpreendente se essa sociedade não pediu à arte que fosse um instrumento de libertação mas um exercício sem grandes consequências e um simples divertimento?(...)"
Albert Camus no seu discurso na Conferência «O Artista e O Seu Tempo», na Universidade de Upsala, em 1957.
domingo, 27 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
se se é novo
"O seu passo miúdo apressa-se: amanhã tudo vai mudar, amanhã. De repente descobre que o amanhã será semelhante, e depois de amanhã, todos o outros dias. E a irremediável descoberta esmaga-o. São ideias como esta que nos fazem morrer. Há quem se mate por não poder suportá-las - ou, se se é novo, fazem-se frases a seu respeito."
Albert Camus, O Avesso e o Direito, "A Ironia", Edição «Livros do Brasil» Lisboa, p.41.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
um verdadeiro bico-de-obra
"«Nenhum artista pintará o seu quadro, nenhum general ganhará a vitória, nenhuma nação atingirá a liberdade» sem esse horizonte, sem amar o que faz «muito mais infinitamente do que isso mereça ser amado».
Mas é precisamente a nossa consciência histórica que torna esse amor impossível. A história ensina-nos que houve no passado uma infinidade de horizontes - civilizações, religiões, códigos éticos, «sistemas de valores». Os povos que os possuíam, faltando-lhe a nossa moderna consciência histórica, acreditavam que o seu horizonte era o único possível. Aqueles que vivem na idade avançada deste processo, aqueles que vivem na idade avançada da humanidade, não podem ter uma visão tão pouco crítica. A educação moderna, essa educação universal absolutamente essencial para preparar as sociedades para o moderno mundo económico, liberta os homens das suas amarras à tradição e à autoridade. Eles sabem que o seu horizonte é apenas isso, não a terra firme, mas uma miragem que desaparece com a aproximação, dando lugar a um outro horizonte. É por isso que o homem moderno é o último homem, exausto pela experiência da história e desenganado quanto à possibilidade de uma experiência directa de valores.
Por outras palavras, a educação moderna estimula uma certa apetência para o relativismo, isto é, para a doutrina que enuncia que todos os sistemas de valores são relativos ao tempo e ao lugar, não sendo nenhum deles verdadeiro, mas sim reflexo de preconceitos ou interesses dos seus proponentes. A doutrina que sustenta não existirem perspectivas privilegiadas ajusta-se lindamente ao desejo do homem democrático de acreditar que o seu modo de vida é tão bom como qualquer outro. Neste contexto, o relativismo não leva à libertação dos grandes e poderosos, mas dos medíocres, a quem é agora dito que nada têm de que se envergonhar."
Fukuyama, Francis, O Fim Da História E O Último Homem, gradiva, 1ª ed., p. 296-297.
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