quarta-feira, 16 de outubro de 2013

um verdadeiro bico-de-obra

"«Nenhum artista pintará o seu quadro, nenhum general ganhará a vitória, nenhuma nação atingirá a liberdade» sem esse horizonte, sem amar o que faz «muito mais infinitamente do que isso mereça ser amado».
Mas é precisamente a nossa consciência histórica que torna esse amor impossível. A história ensina-nos que houve no passado uma infinidade de horizontes - civilizações, religiões, códigos éticos, «sistemas de valores». Os povos que os possuíam, faltando-lhe a nossa moderna consciência histórica, acreditavam que o seu horizonte era o único possível. Aqueles que vivem na idade avançada deste processo, aqueles que vivem na idade avançada da humanidade, não podem ter uma visão tão pouco crítica. A educação moderna, essa educação universal absolutamente essencial para preparar as sociedades para o moderno mundo económico, liberta os homens das suas amarras à tradição e à autoridade. Eles sabem que o seu horizonte é apenas isso, não a terra firme, mas uma miragem que desaparece com a aproximação, dando lugar a um outro horizonte. É por isso que o homem moderno é o último homem, exausto pela experiência da história e desenganado quanto à possibilidade de uma experiência directa de valores.
Por outras palavras, a educação moderna estimula uma certa apetência para o relativismo, isto é, para a doutrina que enuncia que todos os sistemas de valores são relativos ao tempo e ao lugar, não sendo nenhum deles verdadeiro, mas sim reflexo de preconceitos ou interesses dos seus proponentes. A doutrina que sustenta não existirem perspectivas privilegiadas ajusta-se lindamente ao desejo do homem democrático de acreditar que o seu modo de vida é tão bom como qualquer outro. Neste contexto, o relativismo não leva à libertação dos grandes e poderosos, mas dos medíocres, a quem é agora dito que nada têm de que se envergonhar."
 
Fukuyama, Francis, O Fim Da História E O Último Homem, gradiva, 1ª ed., p. 296-297.

dos grandes discursos

 


This Land Is Mine (1943), de Jean Renoir.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

back to the 80's

 
"Soul Mining", do álbum Soul Mining, 1983, by The The.
 
 
Something always goes wrong
When things are going right
You've swallowed your pride
To quell the pain inside
Someone captured your heart
Like a thief in the night
And squeezed all the juice out
Until it ran dry

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

não lhe pediríamos tanto


Audrey

 

A escolher, teria certamente de concordar com Jacques Doniol-Valcroze, quando a dada altura afirmou, a propósito de fascínios com actrizes, "Audrey Hepburn, c’est moi".

terça-feira, 1 de outubro de 2013

deliciem-se

 


O Cineclube FDUP volta a oferecer cinema pela rua dos Bragas. É só espreitar ali ao lado.

enfado ado ado ado

"Existem pessoas para as quais o que de mais valioso têm na vida é alguma doença do corpo ou da alma. Passam pela vida com essa doença e só vivem através dela; sofrendo, alimentam-se dela, queixam-se dela aos outros e, assim, atraem a atenção dos amigos. Obtêm a compreensão dos outros e, excepto isso, mais nada têm. Tirem-lhes essa doença, curem-nas e elas tornar-se-ão infelizes, porque lhes faltará o seu único meio de vida - tornar-se-ão vazias. Por vezes, a vida de um homem é tão vazia que ele se vê constrangido a valorizar o seu defeito e viver através dele, sendo possível dizer que muitas vezes os homens se tornam maus apenas por enfado."
 
 
Máximo Gorki, vinte e seis e mais uma, Estrofes & Versos, 1ª ed., Setembro de 2010, p. 26.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Vai, Vai Virgem Pela Segunda Vez






Vai, Vai Virgem Pela Segunda Vez (1969), de Kôji Wakamatsu.


 "A cor em Wakamatsu sinaliza amiúde o trauma e o trauma é frequentemente sinalizado pelo sexo. Ele e ela tornam-se cúmplices mais que amigos, porque, como vamos percebendo, nenhum dos dois acredita na amizade, tal como nenhum dos três – e já estou aqui a incluir o realizador, Kôji Wakamatsu – acredita verdadeiramente no amor. É preciso dar um salto, “sair do filme”, para que uma relação – mais que uma cinzenta cumplicidade – se possa gerar entre os dois. A vingança acontece sem sentimento de vingança, porque isso – o “sentimento” – implicava esperança em qualquer coisa, pelo que Vai, Vai Virgem… também não é uma obra sobre um crime e o seu payback moral. Quer dizer, usando aqui uma terminologia barthesiana, dir-se-ia que o seu studium talvez se reduza a isso, mas o seu punctum reside por inteiro no último plano em que ela e ele estão juntos, estendidos na estrada, apenas separados por um traço contínuo que, numa linguagem de descodificação simbólica, diríamos que representa o tempo, “aquilo ” que o casal – e a sua “força revolucionária” terá sido essa – conseguiu romper além-vida."
 
O texto é daqui.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

de Vico e do Anticartesianismo

"(...) atacou o pressuposto cartesiano de que o critério da verdade é a ideia clara e distinta. Salientou que, efectivamente, este não passava de um critério subjectivo ou psicológico. O facto de eu considerar as minhas ideias claras e distintas só prova que eu acredito nelas, mas não prova que são verdadeiras."

Collingwood R. G., A Ideia de História, Editorial Presença, 9ª edição, 2001, p.83.

Tilda Swinton

 

Caravaggio (1986), de Derek Jarman.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

da Irlanda (ii)



Some day I will go to Aarhus 
To see his peat-brown head, 
The mild pods of his eye-lids, 
His pointed skin cap. 


In the flat country near by 
Where they dug him out, 
His last gruel of winter seeds 
Caked in his stomach, 


Naked except for 
The cap, noose and girdle, 
I will stand a long time. 
Bridegroom to the goddess, 


She tightened her torc on him 
And opened her fen, 
Those dark juices working 
Him to a saint's kept body, 


Trove of the turfcutters' 
Honeycombed workings. 
Now his stained face 
Reposes at Aarhus. 


II 

I could risk blasphemy, 

Consecrate the cauldron bog 
Our holy ground and pray 
Him to make germinate 


The scattered, ambushed 
Flesh of labourers, 
Stockinged corpses 
Laid out in the farmyards, 


Tell-tale skin and teeth 
Flecking the sleepers 
Of four young brothers, trailed 
For miles along the lines. 


III 

Something of his sad freedom 
As he rode the tumbril 
Should come to me, driving, 
Saying the names 


Tollund, Grauballe, Nebelgard, 

Watching the pointing hands 
Of country people, 
Not knowing their tongue. 


Out here in Jutland 
In the old man-killing parishes 
I will feel lost, 
Unhappy and at home. 


Seamus Heaney, "The Tollund Man". 

Petrovna. Delon.




Outono Escaldante (1972), de Valerio Zurlini.