sexta-feira, 19 de abril de 2013

O problema das gerações, sempre o problema das gerações

 


Aqui, na Regra do Jogo, de Jean Renoir e em 1939, depois de toda a trama, o general que por lá se passeava, observando uma ou outra coisa, acaba por afirmar que o problema, a causa de toda aquela confusão - da qual não chega a perceber grande coisa, mas isso afinal pouco importa -, a causa/problema estaria no exacto facto de àquela geração ter sempre sido permitido atravessar na passadeira, com todas as ilações e consequências que daí (da expressão "atravessar na passadeira") facilmente se retiram.


Hoje, no Le Monde diplomatique, edição portuguesa, II série, nº 77, Março de 2013, num artigo intitulado de A França deve sair da Aliança Atlântica, Régis Debray a dada altura escreve "A geração actual tem a memória curta e nunca apanhou pancada. Cresceu dentro de uma bolha protectora e atravessa sempre na passadeira. E vê-se perante a obrigação de ser simpática. Os desmancha-prazeres nunca são simpáticos."


Mas, afinal, de que geração/gerações andamos todos por aí a falar? Aqui e ali e, de resto, em todo o lado e a qualquer momento, lá vem a expressão: esta geração...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

dos de(s) e dos da(s)

Da palavra ao gesto, a cada vez que destoam, vai uma torpe distância, que não é somente uma distância de verdade - ela é dotada de factual existência -, mas que é essencialmente a distância da verdade. Falaste, e então?

Rocco Rocco Rocco

 
 
 

 
 
 

 
 
 
 
 
 
 




Rocco e i suoi fratelli, 1960, de Visconti.

Hoje acordei e ainda estou atarantada com tudo isto.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

You can do nothing and be nothing but what I will infold you

Enough! enough! enough!
Somehow I have been stunn'd. Stand back!
Give me a little time beyond my cuff'd head, slumbers, dreams, gaping,
I discover myself on the verge of a usual mistake.

That I could forget the mockers and insults!
That I could forget the trickling tears and the blows of the bludgeons and hammers!
That I could look with a separate look on my own crucifixion and bloody crowning.

I remember now,
I resume the overstaid fraction,
The grave of rock multiplies what has been confided to it, or to any graves,
Corpses rise, gashes heal, fastenings roll from me.

(...)

Eleves, I salute you! come forward!
Continue your annotations, continue your questionings.

(...)

Behold, I do not give lectures or a little charity,
When I give I give myself.

You there, impotente, loose in the knees,
Open your scarf'd chops till I blow grit within you,
Spread your palms and lift the flaps of your pockets,
I am not to be denied, I compel, I have stores plenty and to spare,
And any thing I have I bestow.

I do not ask who you are, that is not important to me,
You can do nothing and be nothing but what I will infold you.

(...)

This day before dawn I ascended a hill and look'd at the crowded heaven,
And I said to my spirit When we become the enfolders of those orbs, and the pleasure of knowledge of every thing in them, shall we be fill'd and satisfied then?

And my spirit said No, we but level that lift to pass and continue beyond.

You are also asking me questions and I hear you,
I answer that I cannot answer, you must find out for yourself.

(...)

Canto de Mim Mesmo, Walt Whitman, BI.045 - excertos entre a p. 104 e a p. 130.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Todos têm as suas razões



Ali a partir dos 11 minutos, mais coisa, menos coisa, é que o filme começa. Pelo menos começa a valer. André Jurieux, um aviador que havia feito um voo extraordinário, depois de perceber que a mulher que ama não estava no aeroporto para o receber (e desolado com isso), viaja de carro com Octave (Jean Renoir) - que é também a sua ligação directa com a sua amada -, até que têm um acidente. Uma imagem: o campo, apenas (tentei encontra-la para aqui a deixar, mas em vão). E de seguida surgem eles, em conversa desenfreada.

A questão, pelo menos a mais importante, é: Jurieux, que podia ter assumido, aquando da aterragem, o papel de herói nacional, opta por se lamentar, perante todos e ao microfone, a ausência daquela que ama. Ele, que podia ser, naquele exacto momento, tudo, opta por não ser nada. Como se as pessoas (e o amor) andassem por aí sem rumo, a anularem-se umas às outras; como se ninguém tivesse valor apenas pelo que é. E sublinho: como se. Mas pois está claro: ele ama-a e, tal como ele, outros tantos se amam e se amarão (e deixarão de amar) em linhas cruzadas ao longo do filme. E assim, porque "o pior de tudo na vida é que todos têm as suas razões", e as razões de todos são e serão sempre a mesma, aquela, ninguém ali chega, de facto, a ser alguma coisa.


A Regra do Jogo, Jean Renoir, 1939

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Tudo se gasta

Dos sentidos; ou dos sentimentos - sei lá!

"- Eu sei o que isso é. A pessoa procura esquecer, mas não dá resultado. O que tem a fazer é, pelo contrário, acolher com amabilidade os pensamentos desagradáveis.
- Que diz você, Mike?
- Lembre-se de tudo quanto possa, do princípio até ao fim. De cada vez que isso chegue, faça a mesma coisa, sem nada omitir. Depressa tudo se gasta, desaparecendo aos bocados, até nada ficar. Experimentei, e deu resultado."

o inverno do nosso descontentamento, John Steinbeck, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, p. 105

quarta-feira, 3 de abril de 2013

É já amanhã!

 
 
Vem para aqui um bocadinho atrasado, mas importa que chegue. De qualquer forma, a programação seguirá, a partir de amanhã, dia 4 de Abril, tal como planeado. Quanto ao resto das explicações, encontram-nas aqui.
 
Até lá e Bons Filmes!
 


segunda-feira, 1 de abril de 2013

ainda a partir de Godard

O próprio teria afirmado "Faz parte da regra querer a morte da excepção".

Da família humana

Numa carta aberta a Hubert Védrine sobre a saída da França da OTAN, Régis Debray escreve:

 "Sentimentalmente, faço parte da família francófona; sinto mais afinidades com um argelino, um marroquino, um vietnamita ou um malgaxe do que com um albanês, um dinamarquês ou um turco (membros estes três da OTAN). Culturalmente, faço parte da família latina (Mediterrâneo e América do Sul). Filosoficamente, da família humana. Porque deveria eu fechar-me numa única família?"

in Le Monde Diplomatique, Régis Debray, edição portuguesa, Março 2013, p. 37

Naturalmente, o artigo, suficientemente extenso e inteligente para não deixar grandes dúvidas, tem muito mais que se lhe diga. Porém, por hoje, aqui fica apenas isto.

sábado, 30 de março de 2013

sexta-feira, 29 de março de 2013

do encanto e do passado

"Porlock Street conservou os antigos candeeiros a gás, mas agora com electricidade. Durante o Verão, os turistas vêm admirar a arquitectura e aquilo a que chamam «o encanto do passado»". E assim Ethan, de súbito, se/nos pergunta "Porque estarão tão unidos o encanto e o passado?"


o inverno do nosso descontentamento, John Steinbeck, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, p.51

quinta-feira, 14 de março de 2013

Assim foi, no Belvedere

 

"(...) uma exposição de Fotos de Choque na galeria Orsay, das quais muito poucas conseguem precisamente chocar-nos, veio dar, paradoxalmente, razão à observação de Geneviève Serreau: não basta ao fotógrafo significar-nos o horrível para que a gente o sinta.
A maior parte das fotografias aqui reunidas para nos chocar não produz nenhum efeito sobre nós, precisamente porque o fotógrafo se substitui demasiado generosamente a nós mesmos na elaboração do tema: quase sempre o horror que nos propõe foi por ele superconstruído, acrescentado ao facto, através de contrastes e aproximações, a linguagem internacional do horror: um deles, por exemplo, coloca lado a lado uma multidão de soldados e um campo de cabeças de mortos (...). Ora nenhuma dessas fotografias, demasiado hábeis, nos toca. É que, em face delas, vemo-nos em cada caso desapossados do nosso juízo: tiveram medo por nós, reflectiram por nós, julgaram por nós; o fotógrafo não nos deixou mais nada, além de um simples direito de aquiescência intelectual(...).
Alguns pintores tiveram de enfrentar este mesmo problema da ponta extrema, da acmê do movimento, mas conseguiram resolvê-lo bem melhor. Os pintores da época do "Império", por exemplo, tendo de reproduzir instantâneos (um cavalo empinado, Napoleão estendendo os braços sobre o campo de batalha), conservaram ao movimento o signo amplificado do instável, o que poderia chamar-se o númen, o arrepio solene de uma pose, impossível, no entanto, de instalar no tempo; esta amplificação imóvel do imperceptível - que mais tarde no cinema se chamará fotogenia - é o lugar preciso onde a arte começa. O ligeiro escândalo deste cavalo exageradamente empinado, deste Imperador imobilizado num gesto impossível, esta obstinação da expressão, que se poderia chamar também retórica, acrescenta à leitura do signo uma espécie de aposta perturbante, que provoca no leitor da imagem uma admiração menos intelectual do que visual, porque, precisamente, ele prende-a às superfícies do espectáculo, à sua resistência óptica, e não de modo imediato à sua significação(...)".

Roland Barthes, Mitologias, Edições 70, p. 166 a p. 168


Breve nota sobre a imagem: O primeiro-cônsul Napoleão cruzando os Alpes no passo de Grande São Bernardo, por Jacques-Louis David. Em Viena, naquela altura, o Museu de História da Arte, onde me encontraria com Napoleão, encontrava-se em remodelação. Arregalei os olhos e corri escadaria acima quando estonteantemente me apercebi que, afinal, nos encontraríamos ali, no Belvedere. Colossal.