sábado, 30 de março de 2013

sexta-feira, 29 de março de 2013

do encanto e do passado

"Porlock Street conservou os antigos candeeiros a gás, mas agora com electricidade. Durante o Verão, os turistas vêm admirar a arquitectura e aquilo a que chamam «o encanto do passado»". E assim Ethan, de súbito, se/nos pergunta "Porque estarão tão unidos o encanto e o passado?"


o inverno do nosso descontentamento, John Steinbeck, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, p.51

quinta-feira, 14 de março de 2013

Assim foi, no Belvedere

 

"(...) uma exposição de Fotos de Choque na galeria Orsay, das quais muito poucas conseguem precisamente chocar-nos, veio dar, paradoxalmente, razão à observação de Geneviève Serreau: não basta ao fotógrafo significar-nos o horrível para que a gente o sinta.
A maior parte das fotografias aqui reunidas para nos chocar não produz nenhum efeito sobre nós, precisamente porque o fotógrafo se substitui demasiado generosamente a nós mesmos na elaboração do tema: quase sempre o horror que nos propõe foi por ele superconstruído, acrescentado ao facto, através de contrastes e aproximações, a linguagem internacional do horror: um deles, por exemplo, coloca lado a lado uma multidão de soldados e um campo de cabeças de mortos (...). Ora nenhuma dessas fotografias, demasiado hábeis, nos toca. É que, em face delas, vemo-nos em cada caso desapossados do nosso juízo: tiveram medo por nós, reflectiram por nós, julgaram por nós; o fotógrafo não nos deixou mais nada, além de um simples direito de aquiescência intelectual(...).
Alguns pintores tiveram de enfrentar este mesmo problema da ponta extrema, da acmê do movimento, mas conseguiram resolvê-lo bem melhor. Os pintores da época do "Império", por exemplo, tendo de reproduzir instantâneos (um cavalo empinado, Napoleão estendendo os braços sobre o campo de batalha), conservaram ao movimento o signo amplificado do instável, o que poderia chamar-se o númen, o arrepio solene de uma pose, impossível, no entanto, de instalar no tempo; esta amplificação imóvel do imperceptível - que mais tarde no cinema se chamará fotogenia - é o lugar preciso onde a arte começa. O ligeiro escândalo deste cavalo exageradamente empinado, deste Imperador imobilizado num gesto impossível, esta obstinação da expressão, que se poderia chamar também retórica, acrescenta à leitura do signo uma espécie de aposta perturbante, que provoca no leitor da imagem uma admiração menos intelectual do que visual, porque, precisamente, ele prende-a às superfícies do espectáculo, à sua resistência óptica, e não de modo imediato à sua significação(...)".

Roland Barthes, Mitologias, Edições 70, p. 166 a p. 168


Breve nota sobre a imagem: O primeiro-cônsul Napoleão cruzando os Alpes no passo de Grande São Bernardo, por Jacques-Louis David. Em Viena, naquela altura, o Museu de História da Arte, onde me encontraria com Napoleão, encontrava-se em remodelação. Arregalei os olhos e corri escadaria acima quando estonteantemente me apercebi que, afinal, nos encontraríamos ali, no Belvedere. Colossal.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

La folie

 
 
 
 
 


 
 
"Sobre essa loucura convém recordar as palavras e gestos de Chantal Akerman que apresentou o filme há uns dias em Portugal em ante-estreia, a propósito da retrospectiva que o Doclisboa lhe dedica este ano. Pôs a mão na cabeça e levou-a daí ao peito e disse que o cinema devia passar pela cabeça e pelo coração. E que quando foi filmar ao Cambodja se deixou levar pelo espaço e que em muitas situações (em que normalmente filmaria de forma mais rigorosa, com mais takes) quis obter uma certa fluidez que tem a ver com a vida, com o sentido de urgência no aproveitamento do espaço.
(...)
E eis-nos chegado ao passe de mágica de La folie Almayer (A Loucura de Almayer, 2011) ou à conversão da loucura Conrad em loucura Akerman: a natureza nunca é um espaço de agressão (como em Herzog por exemplo) e há antes um dispositivo cinematográfico que permite trabalhar o velado do estado de obsessão. Por um lado, uma irrisão da narrativa que explica (há ao invés um guiar quase sensorial do filme pelas personagens acessórias: os criados mas também a esposa). Por outro lado, a inacessibilidade da loucura (como do amor: quando nos apaixonamos esse objecto é o outro ou a nossa falta?) dada através dos planos longos, de uma certa teatralidade, como se o presente fosse um momento interminável no interior do qual a obsessão gira e para a qual não há libertação aparente."
 
O texto é daqui.

La folie Almayer, Chantal Akerman, 2011

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013