segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Na era moderna a divisão entre a arte e o mundo era quase absoluta, ou, dito de outro modo, a arte era um mundo à parte. O que se levava em conta neste mundo era obviamente uma questão de gosto pessoal, e esse gosto rapidamente se tornou o próprio cerne da arte, que assim podia e de certo modo tinha de o fazer para sobreviver, admitir objectos do mundo real, e a situação a que chegámos agora foi a de que a arte já não tem nenhuma importância, e toda a ênfase é colocada no que a arte exprime, ou seja, não no que é, mas no que pensa, nas ideias que carrega, de tal maneira que os últimos resquícios de objectividade, os últimos resquícios de algo exterior ao mundo humano foram abandonados. A arte acabou por se tornar uma cama por fazer, um par de fotocopiadoras numa sala, uma mota num sótão. E a arte tornou-se espectadora de si mesma, do modo como reage, do que os jornais escrevem sobre si, e o artista é um executante. É assim que as coisas são. A arte não conhece nada além de si, a ciência também não, nem a religião. O nosso mundo está encerrado em si mesmo, encerrado em nós, e não há como escapar dele. Aqueles que nestas circunstâncias exigem mais profundidade intelectual, mais espiritualidade, não perceberam nada, porque o problema é que o intelecto se apoderou de tudo. Tudo se tornou intelecto, até o nosso corpo já não é um corpo, mas uma ideia de corpo, algo que se localiza no paraíso das imagens e conceitos dentro e acima de nós, onde uma parte cada vez maior da nossa vida é vivida. Os limites daquilo que não nos diz nada - o insondável - já não existem. Compreendemos tudo, e assim é porque transformámos tudo em nós mesmos. Como seria de esperar, hoje em dia todos aqueles que se ocuparam do neutro, do negativo e do não-humano na arte se viraram para a linguagem, é aí que a estranheza e o incompreensível têm sido procurados, como se devessem ser encontrados nas margens da expressão humana, ou seja, na periferia da nossa compreensão, e é claro que isso tem a sua lógica: onde poderiam ser encontrados num mundo que já não reconhece o que está para além dele? 

É nesta perspectiva que temos de ver o papel estranhamente ambíguo que a morte assumiu. Por um lado, está à nossa volta, somos inundados por notícias de mortes, imagens de mortos; porque a morte, nesse sentido, não tem limites, é maciça, omnipresente, incansável. Mas isso é a morte como ideia, a morte sem corpo, a morte como pensamento e imagem, a morte como um conceito intelectual. Essa morte equivale à palavra "morte", a entidade não corpórea a que nos referimos quando mencionamos o nome de uma pessoa que morreu. Enquanto a pessoa está viva, o nome refere-se ao corpo, ao local onde reside, àquilo que faz; com a morte o nome desliga-se do corpo e permanece entre os vivos, que, quando usam o nome, se referem sempre à pessoa que foi, e nunca à pessoa que é agora, um corpo que jaz a apodrecer num sítio qualquer. Esse aspecto da morte, que pertence ao corpo, é concreto, físico e material, é uma morte que se esconde com tantos cuidados que roça a psicose, e funciona, pois basta ouvirmos o modo como se costumam expressar as pessoas que involuntariamente testemunharam acidentes fatais ou homicídios. Dizem sempre o mesmo - que foi completamente irreal -, embora queiram dizer o contrário. Foi tudo muito real. Mas já não vivemos nessa realidade. Para nós, tudo foi virado de cabeça para baixo, para nós o real é irreal e o irreal é real. E a morte é o último grande além. É por isso que tem de ser ocultada. Porque a morte pode estar além do nome e além da vida, mas não está para além do mundo. 

A Minha Luta: 1, Karl Ove Knausgard.

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