sexta-feira, 24 de julho de 2015

"Para o coração a vida é simples: bate enquanto pode."

"O meu epitáfio talvez seja: Aqui jaz um homem que aguentou. E que só no fim soçobrou. (Espero ser enterrado na Suécia para que não se perca a rima dos versos.) Ou talvez melhor: 

           Aqui jaz um homem que nunca se queixou
          uma vida completa foi algo que nunca gozou 
          as suas últimas palavras antes de morrer 
          e de atravessar para o lado de quem já não está a viver 
         foram: Raios, está um frio de rachar 
         será que alguém pode trazer-me um pouco de calor? 

Ou talvez ainda melhor: 

        Aqui jaz um autor 
        um bom homem, bem lá no fundo,
        mas o riso era para ele algo sem valor 
        e não sabia o que era a felicidade 
        teve outrora a boca cheia de verborreia 
        e agora tem-na cheia de areia

       Venham larvas, venham vermes,
       sirvam-se à vontade 
       Comam um olho
       Pouco importa
       Os olhos de nada têm medo. 

Mas se ainda tenho trinta anos pela frente, não se pode partir do princípio de que serei o mesmo. 
Então talvez seja melhor algo assim?

       De todos nós para Ti, Deus, nosso pai, 
       Aí está ele com cabelo e pele e tudo o que cai
      Karl Ove Knausgard está finalmente morto e enterrado 
      há muito que não come o nosso pão amado
      rompeu com os amigos 
      para ficar livre para as suas masturbações e livros 
      masturbava-se e escrevia,  mas não se saiu bem,
      faltava-lhe o estilo e não continuou
     então, comeu um bolo, depois mais um ainda quente
     a seguir uma batata, depois um arenque
     assou um leitão 
      e comeu-o gritando heil!
      Não sou nazi, mas gosto de camisas castanhas
     Mudo o alfabeto e escrevo em runas! 

     Os editores recusaram, o homem começou a passar-se 
     gemeu e soluçou e não conseguia parar
     a sua barriga cresceu, o cinto apertou, 
     nos olhos um véu, na língua um sabor a fel: 
     "Eu só queria escrever o que na cabeça tinha!"

     A gordura bloqueou-lhe o coração e as veias 
     até um dia gritar com dor e sem peias: 
     ajudem-me, ajudem-me o meu coração está a parar
     arranjem-me um dador, não me importo que seja um morto! 
     O médico disse que não, lembro-me do teu livro 
     morrerás como um peixe, como um peixe corroído.
     Sentes a dor, sente-la contigo? 
     O teu coração parou, é o fim, meu amigo! 

Ou talvez, se tiver sorte, algo um pouco menos pessoal:

     Aqui jaz um homem que fumava no leito 
     junto à mulher, que morreu do mesmo jeito.
     Extinta a flama
    estas são apenas cinzas 
    recolhidas na cama.


A Minha Luta: 1, Karl Ove Knausgard.

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