segunda-feira, 1 de junho de 2015

do pecado na confusão

"(...)No campo das emoções, la grande passion revela-se tão destruidora daquilo que é «socialmente aceitável», tão desdenhosa em relação ao que geralmente se considera «digno do nosso respeito», como os proscritos e desertores o eram em relação à sociedade civilizada de onde vinham. Mas a vida vive-se em sociedade, e o amor, por conseguinte - não falo, é claro, do amor romântico que prepara o terreno para a felicidade conjugal - é também destruidor da vida, como sabemos por todos esses pares célebres de amantes cujas histórias acabaram mal. Fugir à sociedade - uma tal fuga não daria direito, além da paixão, a uma vida apaixonada? (...)

Ou prestar-se-ia? Tanto quanto sei, ela nunca escreveu uma história sobre o episódio, mas escreveu alguns contos acerca do que deverá ter sido para ela a lição óbvia dos desvarios da sua juventude, ou seja, acerca do «pecado» de fazer com que uma história se tornasse realidade, de intervir na vida obedecendo a um esquema preconcebido, em vez de esperar pacientemente que a história viesse à luz do dia, acerca da distinção entre repetir na imaginação e criar uma ficção para em seguida tentar viver de acordo com ela. (...)

Assim, a primeira  parte da sua vida ensinara-lhe que embora se possam contar histórias ou escrever poemas sobre a vida, não se pode tornar a vida poética, vivê-la como se de uma obra de arte se tratasse (como Goethe fizera) nem usá-la para a realização de uma «ideia». A vida pode conter a «essência» (que outra coisa poderia contê-la?); a memória, a repetição imaginária, pode decifrar a essência e oferecer-nos o «elixir»; e poderemos até ter o privilégio de «fazer» dele alguma coisa, de «compor a história». Mas a vida em si não é essência nem elixir, e se a tratarmos como tal limitar-se-á a pregar-nos partidas. Talvez tenha sido a experiência amarga das partidas da vida que a preparou (relativamente tarde, pois já passava dos trinta quando conheceu Finch-Hatton) para a grande passion que na verdade é tão rara como uma obra-prima. Em todo o caso, foi o contar de histórias que finalmente a tornou sábia - e não, diga-se de passagem, uma «feiticeira», uma «sereia» ou uma «sibila», como pensava o seu círculo de admiradores. A sabedoria é uma virtude própria da velhice, e parece ser privilégio daqueles que em jovens não foram nem sábios nem prudentes."

Hannah Arendt, sobre Isak Dinesen, Homens Em Tempos Sombrios

Um texto onde se regressa para recordar precisamente da distinção entre ficção e vida, «pecado» que o jovem cinéfilo - ou o jovem, em geral - tanto tende a cometer. 

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