segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

worse and worse



Worse and Worse, Bill Frisell, Ron Carter, Paul Motion.

o cristo cigano

O destino eram 
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:

- Tu esculpirás Seu rosto
   de morte e agonia. 

in O Cristo Cigano, de Sophia de Mello Breyner Andressen


Ao que se acrescenta:
- Tu matarás.
E matou, com a mesma faca que ainda hoje atravessa a história.

há muitas maneiras de matar

Mas eis que a imagem do sofrimento nasce das suas próprias mãos em frente do homem que ele próprio matou. Porque se virarmos a cara ao sofrimento, a vaidade da felicidade perfeita nos levará à monstruosidade e ao crime. Há muitas maneiras de matar. É no sofrimento que o escultor vê aparecer a imagem que ele procurara em vão na manhã e nos campos. A imagem que, para além de todo o erro e pecado, está inscrita na pessoa humana. 

disse-o Sophia, a propósito d' O Cristo Cigano. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ainda da pornografia

Concluiu desejando felicidade. Disse algo do género:
    - Minhas senhoras, meus senhores, os noivos merecem felicidade; logo, serão felizes. 
O que significava:
«Falo por falar.»

in Pornografia, de Witold Gombrowicz

"Nada, a não ser a minha pornografia que deles se alimentava!"

Repito: tudo isso se passou numa questão de segundos. E, na verdade, nada se passou, porque nós estávamos ali pura e simplesmente especados. Apontando com o dedo para as calças de Karol, um pouco compridas de mais e a roçar a terra, Fryderyk disse:
    - É preciso dobrar as pernas das calças dele.
    - É verdade - concordou Karol, inclinando-se.
    - Espere, espere um instante - avançou Fryderyk. 
Via-se que não lhe era fácil exprimir o que queria dizer. Colocou-se de lado para eles, olhando em frente, e com voz rouca mas muito clara sugeriu:
    - Não, espere! Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
E repetiu:
    - Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
Era indecente. Era como se estivesse a assediá-los. Era como confessar o seu desejo de que eles se excitassem: façam-no, que assim vão agradar-me; este é o meu desejo...
Ele estava a iniciá-los na esfera do nosso desejo, daquilo com que nós sonhávamos para eles. Por um segundo, o silêncio deles revoluteou e, por um segundo, aguardei o resultado do descaramento de Fryderyk. O que a seguir se passou foi simples, dócil e fácil, tão «fácil» que quase fiquei com vertigens, como se um abismo se tivesse silenciosamente aberto a meus pés. 
Ela não disse nada. Apenas se agachou e fez-lhe uma dobra nas pernas das calças. Ele, por sua vez, nem se mexeu. O silêncio dos seus corpos era absoluto. 

in Pornografia, de Witold Gombrowicz

The Forest Lake

Nos versos de Edith Södergran, e da inevitável oposição do novo homem, que ascende num impulso vital, à realidade apartada de quem o cria. 

I was alone on a sunny shore
by the forest’s pale blue lake,
in the sky floated a single cloud
and on the water a single island.
Ripe summer’s sweetness dripped
in pearls from every tree
and into my opened heart
a little drop ran down.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014