terça-feira, 30 de setembro de 2014

As Artes Entre As Letras


Publiquei um artigo sobre À Flor do Mar (1986), de João César Monteiro no Jornal As Artes Entre As Letras. Pode ser lido ali, para os assinantes. Caso contrário, no quiosque mais próximo.

"Comecemos – e acabemos, se quiserem, é quanto basta – com Laura. Mulher belíssima, viúva do homem que só pintava aves e que nunca acabava um quadro, antes os destruía, conhece Robert Jordan, possível revolucionário-assassino que aparece a Laura num insuflável, perdido e ferido na costa algarvia, necessitado de refúgio.
Sim, Robert Jordan, um americano como o do Hemingway, mas de brinco na orelha e sem Maria – Oh, Maria! Amo-te e agradeço-te. Como se fosse possível sair-se direitinho de uma novela de Hemingway, acrescenta Sara que, contrariamente ao que possamos pensar, nunca chega a abandonar as vestes de Callas ou os versos de Virgílio. E ler-se-á em sair-se direitinho a impossibilidade de uma saída limpa, como um homem imperturbado, mas, ainda assim, com uma saída, ou tratar-se-á, pelo contrário, de uma imperiosa inabilitação para qualquer tentativa de evasão. Dali não se sai: será essa a tragédia. Ou dali não se sai impune, o que não é bem a mesma coisa. A tragédia deles, os personagens e, quiçá, também a nossa. E se a interrogação pode conservar-se quanto a alguns personagens de À Flor do Mar e até quanto a nós mesmos, já que o espelho aparenta ser um objecto tão curioso, não o poderá quanto a Laura, esse ser que se vagueia conservando a sua angústia e calma sorridente – para escrever, bebe água – sem carregar nisso qualquer contradição. Para Laura não há regresso, nem mesmo com uma salvação americana. Sabemo-lo no momento do beijo, que num corte brusco não chega a existir, para dar lugar ao confronto com ela mesma, frente ao espelho, onde tudo o que estala é Bach e luz, nada de Laura. Um destes dias tenho de arranjar coragem para esgravatar nos escombros. O que é que não ardeu em mim? Esta é a questão central a que todos os sobreviventes devem dar resposta."

Sem comentários:

Enviar um comentário