sexta-feira, 8 de agosto de 2014

uma questão

Era uma mulher solteira. Andaria pela casa dos sessenta, não havia casado ou tido filhos. Vivia ainda com a mãe e haveria, em muitos, fortes suspeitas quanto à sua virgindade. Irrepreensível do ponto de vista da contenção, moralizava todos quantos a rodeavam. Não deixava de acertar em muito do que vinha a dizer, sem que, contudo, alguém lhe prestasse atenção, já que tudo aquilo que pretendia afirmar surgia aos olhos do mundo como um triste moralismo daquela que nada teria conseguido fazer consigo própria. Por mais cautelosos que fossem os seus conselhos, se aquilo que esta mulher representava seria o resultado daquelas opções... antes à ventura! Haveria desperdiçado a sua existência para quê? - perguntavam. Uns tostões no banco. Detestaria a sua profissão, em relação à qual só se ouviriam ecos de quem sempre pragueja; nada que tivesse feito de valor era conhecido. Ocupara-se da família afincadamente, mas a família haveria de constituir outra família e não queria, em geral, ser importunada nas suas felizes rotinas. Deste modo, ganhara a fama de chata. Na sua campa, ainda assim, ler-se-ia um dia 'Da família, com amor, àquela que tanto nos deu sem nada querer em troca'. E depois lembrar-se-iam de como sempre os mandava endireitar as costas. Retraíra-se de tal forma que parecia tê-la abandonado qualquer forma de humanidade: não se lhe eram conhecidas dimensões, assemelhando-se antes a uma planície, de terras há muito secas e infecundas. Não atingira sabedoria ou calma. Não vivera, não amara. Ou, se amara, teria sido num passado tão longínquo que dele ninguém já falava. De primeiro, um silêncio por imposição, depois, trazido pelo esquecimento.  E regressando à sua sexualidade, repita-se, nada se sabia, não porque fosse secreto, mas antes porque nada existia há tanto tempo quanto a memória permitia lembrar. Seria este o retrato que todos ali veriam, mesmo aqueles que no final tentavam aligeirar a descrição, assinalando as suas constantes boas intenções, que não eram de todo mentira, mas que bem vistas as coisas nada contradiziam. Todos sem excepção.
Esta mesma mulher, solteira e de sessenta anos, a ler Yourcenar, sublinhara somente uma frase - muito ao de leve, não se vá estragar o imaculado livro. A técnica do grande sedutor exige, na passagem de um objecto a outro, uma facilidade, uma indiferença. O parágrafo continua, indiferença que eu não tenho relativamente a eles: de qualquer maneira, deixaram-me mais do que eu os deixei a eles; nunca compreendi que alguém se saciasse de um ser. O desejo de conhecer exactamente as riquezas que cada novo amor nos traz, de o ver mudar, talvez de o ver envelhecer, concilia-se mal com a multiplicidade das conquistas, mas desta parte ela não quis já saber. Quem és tu, afinal? Seria aquele o seu entretimento? Não, antes forma prudente de amparo: uma absoluta concentração na mera capacidade. Sendo que o mesmo será dizer possibilidade. Uma vida alicerçada no que se poderia ser, apostando conscientemente em esquecer que o que se poderia ser nunca chega a ser o que se é. (à suivre) 

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