domingo, 27 de julho de 2014

gladly beyond, dear cummings

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me, 
or which i cannot touch because they are too near 

sábado, 26 de julho de 2014

Calo-me

(...) nem há palavras que não cheguem para não dizer nada.

E vós também: não me faleis de nada ou falai-me.
Porque não sabeis o que dizeis.

De onde Pina me levou, em gesto de regresso saudoso, ao Som e à Fúria, onde se aprende a reconhecer sabedoria numa boca calada. 


quarta-feira, 23 de julho de 2014

um trágico entusiasmo pela vida

Não ficara mais sábio com a idade. (E fica-se? – pergunto). Apenas sabia mais coisas. Porém, nos momentos decisivos elas pareciam de nada lhe valer. Importavam a dor e a felicidade. O que sofria e o que amava. O bem e o mal. O bom e o mau. No fundo, era ainda como uma criança, de extremos emocionais dramáticos, onde seguido a um choro por clemência facilmente desabrochava um trágico entusiasmo pela vida. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

da lua (ii)



Os Amantes Crucificados (1954), de Kenji Mizoguchi

"Durante a fuga, há uma extraordinária cena de amor num lago. Mizoguchi, a propósito dela, pegou-se com o argumentista, o grande Yoda Yoshikata que lhe escreveu quase todos os filmes. Acusava a cena de não ter intensidade dramática. Quando Yoda, desiludíssimo, pois, na opinião dele, jamais fizera melhor trabalho, lhe perguntou o que queria dizer com isso, Mizoguchi respondeu: “Olha, vê, por exemplo a cena em que os amantes fazem amor no barco, depois de terem decidido suicidar-se. É idiota e ridícula. Se querem matar-se, é inimaginável que pensem em fazer amor. Metem-se no barco pensando apenas na morte. Tanto basta para mostrar o estado de alma deles naquela altura. Chegam ao meio do lago. E, subitamente, deixam de querer morrer. Não porque tenham medo da morte. Mas porque, ao contrário dos melodramas em que breves momentos roubados à morte são os mais doces da vida, o valor da existência dos momentos futuros - por poucos e breves que venham a ser - extinguiu a tentação da morte, constituiu a única e verdadeira abertura. Não podemos morrer assim, é isso que os amantes devem pensar. É isso que é verdadeiramente trágico.”

Esta passagem esclarece o famoso sentido da elipse na obra de Mizoguchi e o que, através dela, o realizador queria alcançar e alcançou. Tudo cabe em momentos, onde tudo se revela e tudo se abre, iluminando passado e futuro, quaisquer que sejam."

O texto é de Bénard da Costa, ali.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Durante vinte minutos brinquei com ela, dispondo-a segundo a minha fantasia, apalpando, manejando esse corpo sem membros de paralítico total. Nada é tão morto como uma serpente morta. Aquele farrapo depressa perdeu todo o seu prestígio, todo o seu metal. Obstinava-se em mostrar-me aquela cor do ventre, demasiadamente clara, que todos os animais dissimulam até à morte - ou até ao amor.

De Víbora na Mão, de Hervé Bazin.