quinta-feira, 22 de maio de 2014

só no cinema

"Germering, estalagem, as crianças festejam a primeira comunhão; uma banda de sopros, a empregada traz bolos na bandeja que os clientes sentados na mesa comum tentam tirar à socapa. Estradas romanas, fortes célticos, a imaginação trabalha freneticamente. Sábado à tarde, as mães com os filhos. Como são as brincadeiras das crianças? Não como os filmes as mostram. Seria preciso um par de binóculos.
Tudo isto é muito novo, um novo pedaço de vida. Ainda há pouco estava numa passagem aérea, por baixo de mim: um troço e auto-estrada para Augsburg. Do meu carro vejo por vezes as pessoas que se detêm na passagem aérea sobre a auto-estrada e ficam a olhar, agora sou uma delas. A segunda cerveja já começa a descer-me aos joelhos. Um rapaz coloca um cartaz entre duas mesas, fixando as duas pontas com fita-cola. Vai à volta, grita o grupo da mesa comum, por quem se tomam, diz a empregada, depois a música recomeça, muito alta. O grupo gostaria de ver o rapaz a levantar a saia da empregada, mas ele não arrisca.
Só no cinema se poderia tomar tudo isto por verdadeiro."
 
 
Werner Herzog, Caminhar no Gelo, Tinta da China, 2011, p. 17.

1 comentário: