segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

worse and worse



Worse and Worse, Bill Frisell, Ron Carter, Paul Motion.

o cristo cigano

O destino eram 
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:

- Tu esculpirás Seu rosto
   de morte e agonia. 

in O Cristo Cigano, de Sophia de Mello Breyner Andressen


Ao que se acrescenta:
- Tu matarás.
E matou, com a mesma faca que ainda hoje atravessa a história.

há muitas maneiras de matar

Mas eis que a imagem do sofrimento nasce das suas próprias mãos em frente do homem que ele próprio matou. Porque se virarmos a cara ao sofrimento, a vaidade da felicidade perfeita nos levará à monstruosidade e ao crime. Há muitas maneiras de matar. É no sofrimento que o escultor vê aparecer a imagem que ele procurara em vão na manhã e nos campos. A imagem que, para além de todo o erro e pecado, está inscrita na pessoa humana. 

disse-o Sophia, a propósito d' O Cristo Cigano. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ainda da pornografia

Concluiu desejando felicidade. Disse algo do género:
    - Minhas senhoras, meus senhores, os noivos merecem felicidade; logo, serão felizes. 
O que significava:
«Falo por falar.»

in Pornografia, de Witold Gombrowicz

"Nada, a não ser a minha pornografia que deles se alimentava!"

Repito: tudo isso se passou numa questão de segundos. E, na verdade, nada se passou, porque nós estávamos ali pura e simplesmente especados. Apontando com o dedo para as calças de Karol, um pouco compridas de mais e a roçar a terra, Fryderyk disse:
    - É preciso dobrar as pernas das calças dele.
    - É verdade - concordou Karol, inclinando-se.
    - Espere, espere um instante - avançou Fryderyk. 
Via-se que não lhe era fácil exprimir o que queria dizer. Colocou-se de lado para eles, olhando em frente, e com voz rouca mas muito clara sugeriu:
    - Não, espere! Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
E repetiu:
    - Ela que lhe faça uma dobra nas pernas das calças!
Era indecente. Era como se estivesse a assediá-los. Era como confessar o seu desejo de que eles se excitassem: façam-no, que assim vão agradar-me; este é o meu desejo...
Ele estava a iniciá-los na esfera do nosso desejo, daquilo com que nós sonhávamos para eles. Por um segundo, o silêncio deles revoluteou e, por um segundo, aguardei o resultado do descaramento de Fryderyk. O que a seguir se passou foi simples, dócil e fácil, tão «fácil» que quase fiquei com vertigens, como se um abismo se tivesse silenciosamente aberto a meus pés. 
Ela não disse nada. Apenas se agachou e fez-lhe uma dobra nas pernas das calças. Ele, por sua vez, nem se mexeu. O silêncio dos seus corpos era absoluto. 

in Pornografia, de Witold Gombrowicz

The Forest Lake

Nos versos de Edith Södergran, e da inevitável oposição do novo homem, que ascende num impulso vital, à realidade apartada de quem o cria. 

I was alone on a sunny shore
by the forest’s pale blue lake,
in the sky floated a single cloud
and on the water a single island.
Ripe summer’s sweetness dripped
in pearls from every tree
and into my opened heart
a little drop ran down.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

domingo, 30 de novembro de 2014

about Mark Strand

We have done what we wanted.
We have discarded dreams, preferring the heavy industry 
of each other, and we have welcomed grief
and called ruin the impossible habit to break.

And now we are here.
The dinner is ready and we cannot eat. 
The meat sits in the white lake of its dish. 
The wine waits.

Coming to this
has its rewards: nothing is promised, nothing is taken away. 
We have no heart or saving grace,
no place to go, no reason to remain. 

domingo, 2 de novembro de 2014

diziam-me que a poesia de cummings era uma questão de exaltação

I will wade out
                        till my thighs are steeped in burning flowers
I will take the sun in my mouth
and leap into the ripe air
                                       Alive
                                                 with closed eyes
to dash against darkness
                                       in the sleeping curves of my body
Shall enter fingers of smooth mastery
with chasteness of sea-girls
                                            Will i complete the mystery
                                            of my flesh
I will rise
               After a thousand years
lipping
flowers
             And set my teeth in the silver of the moon

Leaning


The Night of the Hunter (1955), de  Charles Laughton.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

um manifesto


L'amore in città (1953), Zavattini, Risi, Maselli, Lizzani, Lattuada, Fellini e Antonioni.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

terça-feira, 7 de outubro de 2014

terça-feira, 30 de setembro de 2014

As Artes Entre As Letras


Publiquei um artigo sobre À Flor do Mar (1986), de João César Monteiro no Jornal As Artes Entre As Letras. Pode ser lido ali, para os assinantes. Caso contrário, no quiosque mais próximo.

"Comecemos – e acabemos, se quiserem, é quanto basta – com Laura. Mulher belíssima, viúva do homem que só pintava aves e que nunca acabava um quadro, antes os destruía, conhece Robert Jordan, possível revolucionário-assassino que aparece a Laura num insuflável, perdido e ferido na costa algarvia, necessitado de refúgio.
Sim, Robert Jordan, um americano como o do Hemingway, mas de brinco na orelha e sem Maria – Oh, Maria! Amo-te e agradeço-te. Como se fosse possível sair-se direitinho de uma novela de Hemingway, acrescenta Sara que, contrariamente ao que possamos pensar, nunca chega a abandonar as vestes de Callas ou os versos de Virgílio. E ler-se-á em sair-se direitinho a impossibilidade de uma saída limpa, como um homem imperturbado, mas, ainda assim, com uma saída, ou tratar-se-á, pelo contrário, de uma imperiosa inabilitação para qualquer tentativa de evasão. Dali não se sai: será essa a tragédia. Ou dali não se sai impune, o que não é bem a mesma coisa. A tragédia deles, os personagens e, quiçá, também a nossa. E se a interrogação pode conservar-se quanto a alguns personagens de À Flor do Mar e até quanto a nós mesmos, já que o espelho aparenta ser um objecto tão curioso, não o poderá quanto a Laura, esse ser que se vagueia conservando a sua angústia e calma sorridente – para escrever, bebe água – sem carregar nisso qualquer contradição. Para Laura não há regresso, nem mesmo com uma salvação americana. Sabemo-lo no momento do beijo, que num corte brusco não chega a existir, para dar lugar ao confronto com ela mesma, frente ao espelho, onde tudo o que estala é Bach e luz, nada de Laura. Um destes dias tenho de arranjar coragem para esgravatar nos escombros. O que é que não ardeu em mim? Esta é a questão central a que todos os sobreviventes devem dar resposta."

domingo, 28 de setembro de 2014

é emoção

Je préfère avoir une vision globale de la question de l'émotion. Définir exactement le point - l'image, le moment, la parole, le geste, le regard - qui déclenche l'émotion est superflu, c'est inutile parce que ça n'explique rien. Les films ont des sommets d'émotion que la vie n'a pas: ils ne sont donc pas la représentation de la vie au sens historique. Ils sont plutôt une abstraction qui résulte du passage de la vérité à la figuration indirecte et relative de la vérité. L'émotion est l'abstraction. C'est un effet qui découle de l'art - l'art est émotionnel. Quand quelqu'un raconte un événement, il raconte ce qu'il pense s'être produit. Mais, en vérité, c'est qui s'est passé est forcément différent, c'est autre chose. 
Le tragique est une classification propre à l'art, non pas à la vie.  

Cahiers du Cinéma, numéro 700, Manoel de Oliveira. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

my oh my

Se não tenho por hábito fazer por aqui grandes apelos aos aniversários da morte ou nascimento de todos aqueles cujo trabalho admiro, abre-se uma excepção para Cohen, esse poeta dos poetas. 80 e Popular Problems. Congratulations Mr. Cohen.



a propósito de um nome, For a Language to Come


 

For a Language to Come, 1970, Takuma Nakahira.

do jazz (ii) e uma deslumbrante Mariko Kaga


Only on Mondays (Getsuyôbi no Yuka, 1964), de Kô Nakahira.  

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

(im)permanência

Aquele homem transformara-se, algures no tempo, numa espécie de objecto mitificado; nem ela mesma - ou ela fundamentalmente - saberia agora dizer da sua real existência, ainda que o visse de forma evidente

do jazz


Fruta Louca (1956), de Kô Nakahira.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Antímaco compreendera melhor o mistério dos horizontes e das viagens e a sombra projectada pelo homem efémero nas paisagens eternas. 

Memórias de Adriano, M. Yourcenar

sábado, 16 de agosto de 2014

na ausência de um deus

A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias.

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

in other words




Une femme mariée: Suite de fragments d'un film tourné en 1964 (1964), de Jean-Luc Godard.

it's hardly right at all

It's never quite right, he said, the way people look,
the way the music sounds, the way the words are 
written.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

uma questão

Era uma mulher solteira. Andaria pela casa dos sessenta, não havia casado ou tido filhos. Vivia ainda com a mãe e haveria, em muitos, fortes suspeitas quanto à sua virgindade. Irrepreensível do ponto de vista da contenção, moralizava todos quantos a rodeavam. Não deixava de acertar em muito do que vinha a dizer, sem que, contudo, alguém lhe prestasse atenção, já que tudo aquilo que pretendia afirmar surgia aos olhos do mundo como um triste moralismo daquela que nada teria conseguido fazer consigo própria. Por mais cautelosos que fossem os seus conselhos, se aquilo que esta mulher representava seria o resultado daquelas opções... antes à ventura! Haveria desperdiçado a sua existência para quê? - perguntavam. Uns tostões no banco. Detestaria a sua profissão, em relação à qual só se ouviriam ecos de quem sempre pragueja; nada que tivesse feito de valor era conhecido. Ocupara-se da família afincadamente, mas a família haveria de constituir outra família e não queria, em geral, ser importunada nas suas felizes rotinas. Deste modo, ganhara a fama de chata. Na sua campa, ainda assim, ler-se-ia um dia 'Da família, com amor, àquela que tanto nos deu sem nada querer em troca'. E depois lembrar-se-iam de como sempre os mandava endireitar as costas. Retraíra-se de tal forma que parecia tê-la abandonado qualquer forma de humanidade: não se lhe eram conhecidas dimensões, assemelhando-se antes a uma planície, de terras há muito secas e infecundas. Não atingira sabedoria ou calma. Não vivera, não amara. Ou, se amara, teria sido num passado tão longínquo que dele ninguém já falava. De primeiro, um silêncio por imposição, depois, trazido pelo esquecimento.  E regressando à sua sexualidade, repita-se, nada se sabia, não porque fosse secreto, mas antes porque nada existia há tanto tempo quanto a memória permitia lembrar. Seria este o retrato que todos ali veriam, mesmo aqueles que no final tentavam aligeirar a descrição, assinalando as suas constantes boas intenções, que não eram de todo mentira, mas que bem vistas as coisas nada contradiziam. Todos sem excepção.
Esta mesma mulher, solteira e de sessenta anos, a ler Yourcenar, sublinhara somente uma frase - muito ao de leve, não se vá estragar o imaculado livro. A técnica do grande sedutor exige, na passagem de um objecto a outro, uma facilidade, uma indiferença. O parágrafo continua, indiferença que eu não tenho relativamente a eles: de qualquer maneira, deixaram-me mais do que eu os deixei a eles; nunca compreendi que alguém se saciasse de um ser. O desejo de conhecer exactamente as riquezas que cada novo amor nos traz, de o ver mudar, talvez de o ver envelhecer, concilia-se mal com a multiplicidade das conquistas, mas desta parte ela não quis já saber. Quem és tu, afinal? Seria aquele o seu entretimento? Não, antes forma prudente de amparo: uma absoluta concentração na mera capacidade. Sendo que o mesmo será dizer possibilidade. Uma vida alicerçada no que se poderia ser, apostando conscientemente em esquecer que o que se poderia ser nunca chega a ser o que se é. (à suivre) 

sábado, 2 de agosto de 2014

de víbora na mão (ii)

Diferente de um insípido final surpreendente porque mirabolante é o arrebatamento da descoberta de um significante que se desconhecia ou, mais exactamente, se julgava outro até ali, até ao fim. Não se tratava, afinal, de uma simples metáfora materna; tenho antes uma víbora para matar, mas uma víbora que me habita, uma víbora que reside em mim

domingo, 27 de julho de 2014

gladly beyond, dear cummings

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me, 
or which i cannot touch because they are too near 

sábado, 26 de julho de 2014

Calo-me

(...) nem há palavras que não cheguem para não dizer nada.

E vós também: não me faleis de nada ou falai-me.
Porque não sabeis o que dizeis.

De onde Pina me levou, em gesto de regresso saudoso, ao Som e à Fúria, onde se aprende a reconhecer sabedoria numa boca calada. 


quarta-feira, 23 de julho de 2014

um trágico entusiasmo pela vida

Não ficara mais sábio com a idade. (E fica-se? – pergunto). Apenas sabia mais coisas. Porém, nos momentos decisivos elas pareciam de nada lhe valer. Importavam a dor e a felicidade. O que sofria e o que amava. O bem e o mal. O bom e o mau. No fundo, era ainda como uma criança, de extremos emocionais dramáticos, onde seguido a um choro por clemência facilmente desabrochava um trágico entusiasmo pela vida. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

da lua (ii)



Os Amantes Crucificados (1954), de Kenji Mizoguchi

"Durante a fuga, há uma extraordinária cena de amor num lago. Mizoguchi, a propósito dela, pegou-se com o argumentista, o grande Yoda Yoshikata que lhe escreveu quase todos os filmes. Acusava a cena de não ter intensidade dramática. Quando Yoda, desiludíssimo, pois, na opinião dele, jamais fizera melhor trabalho, lhe perguntou o que queria dizer com isso, Mizoguchi respondeu: “Olha, vê, por exemplo a cena em que os amantes fazem amor no barco, depois de terem decidido suicidar-se. É idiota e ridícula. Se querem matar-se, é inimaginável que pensem em fazer amor. Metem-se no barco pensando apenas na morte. Tanto basta para mostrar o estado de alma deles naquela altura. Chegam ao meio do lago. E, subitamente, deixam de querer morrer. Não porque tenham medo da morte. Mas porque, ao contrário dos melodramas em que breves momentos roubados à morte são os mais doces da vida, o valor da existência dos momentos futuros - por poucos e breves que venham a ser - extinguiu a tentação da morte, constituiu a única e verdadeira abertura. Não podemos morrer assim, é isso que os amantes devem pensar. É isso que é verdadeiramente trágico.”

Esta passagem esclarece o famoso sentido da elipse na obra de Mizoguchi e o que, através dela, o realizador queria alcançar e alcançou. Tudo cabe em momentos, onde tudo se revela e tudo se abre, iluminando passado e futuro, quaisquer que sejam."

O texto é de Bénard da Costa, ali.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Durante vinte minutos brinquei com ela, dispondo-a segundo a minha fantasia, apalpando, manejando esse corpo sem membros de paralítico total. Nada é tão morto como uma serpente morta. Aquele farrapo depressa perdeu todo o seu prestígio, todo o seu metal. Obstinava-se em mostrar-me aquela cor do ventre, demasiadamente clara, que todos os animais dissimulam até à morte - ou até ao amor.

De Víbora na Mão, de Hervé Bazin.

domingo, 22 de junho de 2014

e ainda a capa


Medeski Martin & Wood, Is There Anybody That Loves My Jesus, do álbum Shack-man (1996).
Enquanto se espera pelo Juice.

é pessoal


Mr. Klein - Um Homem na Sombra (1976), de Joseph Losey

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Malparado

Dizia-o no Malparado:  É sempre assim: uma idealização que se faz na imagem e se desfaz na linguagem. Acordando, terminei a perguntar-me: mas o que é sempre assim, Rita? Quando a idealização se desfaz, desfaz-se sempre na linguagem ou será o verbo desfazer o objecto central da questão? A idealização que sempre se cria e que sempre se desfaz. Assim. Inclinei-me para a segunda.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

só no cinema

"Germering, estalagem, as crianças festejam a primeira comunhão; uma banda de sopros, a empregada traz bolos na bandeja que os clientes sentados na mesa comum tentam tirar à socapa. Estradas romanas, fortes célticos, a imaginação trabalha freneticamente. Sábado à tarde, as mães com os filhos. Como são as brincadeiras das crianças? Não como os filmes as mostram. Seria preciso um par de binóculos.
Tudo isto é muito novo, um novo pedaço de vida. Ainda há pouco estava numa passagem aérea, por baixo de mim: um troço e auto-estrada para Augsburg. Do meu carro vejo por vezes as pessoas que se detêm na passagem aérea sobre a auto-estrada e ficam a olhar, agora sou uma delas. A segunda cerveja já começa a descer-me aos joelhos. Um rapaz coloca um cartaz entre duas mesas, fixando as duas pontas com fita-cola. Vai à volta, grita o grupo da mesa comum, por quem se tomam, diz a empregada, depois a música recomeça, muito alta. O grupo gostaria de ver o rapaz a levantar a saia da empregada, mas ele não arrisca.
Só no cinema se poderia tomar tudo isto por verdadeiro."
 
 
Werner Herzog, Caminhar no Gelo, Tinta da China, 2011, p. 17.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Instant Light




 
As polaroids de Andrei Tarkovsky, do livro Instant Light. Porque só descobri isto agora, pergunto-me.

domingo, 11 de maio de 2014

um homem tem duas sombras

 

Ontem foi dia de Carlos Relvas, o homem que tem duas sombras, no CIAJG. E é-o todo o mês de Maio. E é imperdível, esta autêntica alusão a C. D. Friedrich quando toca à paisagem na fotografia.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

os que vão morrer saudam-te ou de novo da ficcção e do real

O Cinema talvez seja apenas a procura da distância mais justa entre dois olhares - a distância do olhar que nos olha, o que corresponde à distância de nos conhecermos como somos conhecidos.
 
João César Monteiro
 
 
 
Vai e Vem (2003), de João César Monteiro.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

entre cortes ou do apelo

 
À Flor do Mar (1986), de João César Monteiro. Um apelo de abjuração improvável e acontece amanhã, ali.

quarta-feira, 26 de março de 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

isto é tudo relativo

De repente, parecemos todos muito eloquentes, quando nos pomos a discutir o sentido que para o caso não importa bem de o quê. Afinal, é tudo relativo. No final da discussão que, bem vistas as coisas, nunca o chega bem a ser, a conclusão é bastante simples - bem mais do que o problema (mas então, problema, qual problema?) -, é relativo. E assim vamos todos embora, cada qual muito satisfeito consigo próprio, que se esforçou por dizer umas quantas coisas, sabe-se lá bem se previamente pensadas ou não - e, na verdade, se tudo é relativo, não será esse detalhe que fará a diferença. Afastamo-nos todos da mesa e daqui limpamos as nossas mãos. Um pensa isto, o outro aqueloutro, aquele ainda aquilo. Mas na verdade poderiam cada um deles pensar outras quaisquer coisas ou ainda não pensar de todo, que não importaria nada. A resposta é e será sempre a mesma, dizendo-a em jeito diplomático, não vamos agora aqui chatearmo-nos: bom, isso é tudo relativo, depende do ponto de vista. - Ah, claro, do meu ponto de vista, claro! O cinema vale todo o mesmo, a literatura, a arte, gostos não se discutem e, Rita, acautela-te lá nas tuas pretensões! Tudo vale o mesmo e o mesmo pode perfeitamente ser nada, dentro de tamanho relativismo que, veja-se bem, só não permite que seja relativo o facto de ser tudo - e isto é ponto bem assente! - relativo.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Mea Culpa


Brian Eno & David Byrne, album My Life in the Bush of Ghosts, 1981, re-released in expanded form, 2006.

segunda-feira, 10 de março de 2014

toda a gente sabe


que a arte não nos ensina nada. Está claro.

Dentro de Casa (2012), de François Ozon.

sábado, 8 de março de 2014

O Cinema está de regresso à Rua dos Bragas

 
Está lançada a programação do Cineclube FDUP para o 2º semestre de 2013/2014. Para todas as informações, aqui.

sexta-feira, 7 de março de 2014

domingo, 2 de março de 2014

Tu n'as rien vu à Hiroshima (ii)


 
As Ervas Daninhas (2009), de Alain Resnais.
 
Daquele que sempre nos deixou a sós com a grande tela, entregues à nossa própria liberdade e imaginação, presos nessa infinita babilónia que, na verdade, desejávamos não ter acabado. O cinema, sem ele, está agora mais pobre.

O que lhe falta? / Esperança.

 
 
 
E depois estão lá todos. Ele e ela, Cassavetes e Rowlands, claro está, Gazzara, e até o Bogdanovich aparece, só para dizer olá.
 
 
Opening Night (1977), de John Cassavetes. 

"Le monde disparaît de plus en plus des films"

 
"Le Danois [Lars Von Trier] se niche dans une fôrêt ancestrale. Pour lui il n'y a que deux entités, à égalité, flottant, dans l néant: Moi et le monde. Et l'un peut détruire l'autre. Égotisme monstrueux mais qui au moins reconnaît le monde comme altérité. C'est pour cela que sa quête, ironique et désespérée, importe tant malgré ses errements. Le monde disparaît de plus en plus des films. Ne reste que la société, l'homme dans la société avec ses petites histoires. Mais l'homme dans le monde? Face à l'univers, face a la nature, face à sa nature, face à la mort? Il est révélateur que le seul cinéaste qui exalte l'ambition existentielle du cinéma moderne (Bergman-Antonioni-Tarkovsky) cherche à occuper aujourd'hui la place de l'antéchrist ou du poison - celui qui nie le monde. Il ne reste q'un antidote, à réciter envers et contre tout, comme un mantra: «le vent se lève!... Il faut tenter de vivre!»"
 
Cahiers du Cinéma, Janvier 2014, nº 696, Éditorial.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

do amor europeu

 
Diz o Jorge Calado que o amor é uma invenção europeia. Não todo o amor, está claro, mas aquele "amor romântico que engloba distância e sofrimento". Reagi de imediato, sem qualquer prévia reflexão e, com a minha caneta, respondi-lhe na margem: estás louco! Agora, ao reler, fui corrigir-me: Estarás?  

We will grieve not

 


Esplendor na Relva, 1961, de Elia Kazan.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Galizur

 


John Zorn and The Dreamers, Book Of Angels Volume 14. E eu ali, nas nuvens...

domingo, 19 de janeiro de 2014

histórias do princípio do fim do mundo


 
 
Até que diz o Orson Welles, tinha de morrer para nos lembrar de que também estava vivo.
 
 
"La Ricotta", de Pier Paolo Pasolini, em Ro.Go.Pa.G., 1963.

D'as artes entre as letras

 
Dedicado às artes e cultura como, de resto, o nome não engana,  e com sede na cidade do Porto, o jornal As Artes Entre As Letras permitiu-me publicar um texto que há já algum tempo havia deixado neste blog. "Mamma Roma e Pier Paolo Pasolini" pode ser lido nesta edição de 15 de Janeiro, aqui, para os assinantes. Para os interessados que, como eu, ainda não dispensam o papel, pelo menos não em absoluto, podem comprar o jornal no vosso quiosque do costume.
 
 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

it's all emotional

 



 

 Breaking The Waves (1996), de Lars Von Trier.

No Cais


HIPÓTESE:
O cinema é uma vigarice (Godard), mas essa vigarice pode ser superada.
Voltarei com membros de ferro, a pele sombria, o olhar furioso: sobre a minha máscara julgar-me-ão de uma raça forte.
Terei ouro: serei ocioso e brutal. As mulheres cuidam desses ferozes enfermos que regressam dos países quentes. Meter-me-ei nos assuntos políticos. Salvo. Agora para maldito, tenho horror à pátria.
O melhor é um sono bêbedo, no cais.
 
Quem Espera Por Sapatos De Defunto Morre No Cais (1970), de João César Monteiro
N’allez pas trop vite.