quarta-feira, 16 de outubro de 2013

um verdadeiro bico-de-obra

"«Nenhum artista pintará o seu quadro, nenhum general ganhará a vitória, nenhuma nação atingirá a liberdade» sem esse horizonte, sem amar o que faz «muito mais infinitamente do que isso mereça ser amado».
Mas é precisamente a nossa consciência histórica que torna esse amor impossível. A história ensina-nos que houve no passado uma infinidade de horizontes - civilizações, religiões, códigos éticos, «sistemas de valores». Os povos que os possuíam, faltando-lhe a nossa moderna consciência histórica, acreditavam que o seu horizonte era o único possível. Aqueles que vivem na idade avançada deste processo, aqueles que vivem na idade avançada da humanidade, não podem ter uma visão tão pouco crítica. A educação moderna, essa educação universal absolutamente essencial para preparar as sociedades para o moderno mundo económico, liberta os homens das suas amarras à tradição e à autoridade. Eles sabem que o seu horizonte é apenas isso, não a terra firme, mas uma miragem que desaparece com a aproximação, dando lugar a um outro horizonte. É por isso que o homem moderno é o último homem, exausto pela experiência da história e desenganado quanto à possibilidade de uma experiência directa de valores.
Por outras palavras, a educação moderna estimula uma certa apetência para o relativismo, isto é, para a doutrina que enuncia que todos os sistemas de valores são relativos ao tempo e ao lugar, não sendo nenhum deles verdadeiro, mas sim reflexo de preconceitos ou interesses dos seus proponentes. A doutrina que sustenta não existirem perspectivas privilegiadas ajusta-se lindamente ao desejo do homem democrático de acreditar que o seu modo de vida é tão bom como qualquer outro. Neste contexto, o relativismo não leva à libertação dos grandes e poderosos, mas dos medíocres, a quem é agora dito que nada têm de que se envergonhar."
 
Fukuyama, Francis, O Fim Da História E O Último Homem, gradiva, 1ª ed., p. 296-297.

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