segunda-feira, 12 de agosto de 2013

do cinema interminável

Porque há coisas que não passam impunes e porque o cinema de Angelopoulos é certamente uma delas, volta e meia surge uma necessidade incontrolável de o revisitar. Assim, deixo aqui a minha crítica ao filme Paisagem na Neblina, do realizador grego, publicada no Jornal Tribuna, no espaço Opinião Directores,  em Dezembro de 2012, que pode ser visto aqui.

"Esta história nunca acaba"

"No início, era a escuridão", inicia Voula em Paisagem na Neblina a história que conta a Alexander, seu irmão mais novo, sem nunca a conseguir terminar. E assim, interminável, será também o cinema de Theo Angelopoulos, realizador grego sobre quem vos escrevo: cineasta do tempo e da procura, mais do que isso, do limite - ora da História, ora do Homem (e ainda da História no Homem).


Paisagem na Neblina, filme que data de 1988 e que se insere na segunda trilogia de Angelopoulos, "A trilogia do silêncio", representando este o terceiro dos silêncios: o silêncio de Deus, antecedido pelo silêncio do Amor e pelo silêncio da História, traz-nos uma imagem. Duas crianças, os irmãos Voula e Alexander, encontram-se numa estação de comboios, observando estáticos a partida de um comboio - aquele que se dirige à Alemanha, aqui país e sonho, onde acreditam que o pai que nunca conheceram vive. Até ao dia em que a indeclinável necessidade de submeter a inactividade ao movimento impera e partem rumo à descoberta, seja do Mundo, seja de si mesmos. "É uma viagem de iniciação à vida. No caminho eles aprendem tudo - o amor e a morte, a mentira e a verdade, a beleza e a destruição. A viagem é simplesmente uma forma de nos concentramos no que a vida a todos nós dá", reiterou Angelopoulos a propósito do filme. 
Efectivamente existem traços transversais no cinema de Angelopoulos que permitem reconhecer qualquer obra como sua tornando-as inconfundíveis, sendo ainda essa transversalidade entre histórias, personagens e espaços um desses mesmos traços característicos. E regressando à viagem na busca constante pela descoberta, tão própria no seu cinema (Mastroianni em O Apicultor viaja para Sul na procura de um lugar redentor, após ser caracterizado como representante de uma geração perdida; em O Olhar de Ulisses procura-se o cinema perdido) facilmente percebemos o porquê de as crianças saírem para procurar um pai perdido num mundo desconhecido. E não se trata tão-somente de fazer aqui uma referência (ainda que também!) autobiográfica - o pai de Angelopoulos desapareceu durante a guerra civil grega, tendo-o este procurado junto dos cadáveres de mão dada com a sua mãe infindáveis vezes, regressando a casa após três dias fugido, para descobrir que pertencia agora a uma geração perdida e errante para quem a ideia de lar no próprio país se afigurava como mito (será ele O Apicultor? - Note-se a importância da História e, mais ainda, do efeito da História nas vidas individuais, tal como na sua, na obra do realizador. À História não haverá como fugir, sobressaindo no seu cinema personagens marcados pela sua história pessoal que se encontra tão veemente ligada à História do século XX na Europa, ainda que em simultâneo se exalte no e através do seu cinema um passado grego mais longínquo: o da filosofia e o da poesia. Será esse o seu legado).





Na verdade, envoltos em cenários inexoráveis, invernos rigorosos e abandonados pela gigante mão-estátua, que se eleva do mar e à qual falta o dedo indicador, a pardacentas praias e a desamparados lugares à beira-estrada, descobrem não só um país onde a melancolia cobriu a existência e o Homem se cansou de viver - a neve cai, as pessoas permanecem imóveis -; ou onde o cinema e ainda talvez as artes dramáticas que outrora os gregos tão bem conheceram não mais têm um papel (e veja-se a crítica na boca de Orestis, que não gosta de funerais) - os actores de "Os Actores Ambulantes" regressam aqui mas, agora que o tempo passou e sem palco onde actuar, vendem as roupas no cais, em jeito de funeral, enquanto relembram o passado: o que resta (deles, da arte, da Grécia?); ou o fotograma do cinema perdido que está vazio porque nele não conseguem ou querem ver nada.


Mais do que isso, as duas crianças desvendam os seus próprios limites. Os delas, os do ser humano, os da existência talvez. As fronteiras? Pois está claro! Como, depois de tamanha odisseia, chegar à Alemanha sem um passaporte? (E sobre a questão das fronteiras no cinema do realizador grego, veja-se impreterivelmente O Passo Suspenso da Cegonha). Serão aqui e ali as fronteiras físicas, que inconsistentemente dividem os homens mas, mais ainda, as fronteiras impalpáveis, que se colocam entre a vida e a morte, entre o diálogo e entre as ideias. Aquelas que Angelopoulos viu em cada um de nós como limites de nós próprios, que não permitem que se alcance determinado lugar, embora haja uma imutável e constante vontade de não estar limitado. Importará tentar. Talvez ele próprio o tenha tentado através do seu cinema e talvez o tenha mesmo conseguido, depois de uma travessia numa barca pelo meio da neblina, extravasando fronteiras e entrando numa dimensão onírica que certamente terá existência, pelo menos no campo da poesia. Ambíguo? Decididamente, mas nem tudo num filme necessita de uma boa explicação. Angelopoulos já o descreveu, chamou-lhe "ambiguidade do real no cinema", que não pode nunca deixar de existir, ou não só não haveria cinema, como deixaríamos ainda de ter a poesia - e, acima de tudo, a poesia no cinema!


Theo Angelopoulos morreu, após ser atropelado por uma mota durante as filmagens de uma quarta trilogia, em Janeiro de 2012. Agora que 2012 termina, e porque não será um texto que lhe fará jus, fique-se com o seu cinema, fique-se com a sua poesia. Vejam e, acreditem, valerá a pena!  

2 comentários:

  1. Acabo de descobrir este blog e leio logo este texto excelente sobre um dos meus filmes preferidos :) O cinema de Angelopoulos estava mesmo destinado a ficar incompleto, suspenso no tempo...

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  2. Que belo texto, Rita. Vi o filme ontem (por altura do teu post já o tinha em eterna fila de espera, vá-se lá perceber porquê) e fiquei desarmado. A neblina ainda vai levar alguns dias a dissipar, certamente.

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