sexta-feira, 30 de agosto de 2013

da Irlanda (ii)



Some day I will go to Aarhus 
To see his peat-brown head, 
The mild pods of his eye-lids, 
His pointed skin cap. 


In the flat country near by 
Where they dug him out, 
His last gruel of winter seeds 
Caked in his stomach, 


Naked except for 
The cap, noose and girdle, 
I will stand a long time. 
Bridegroom to the goddess, 


She tightened her torc on him 
And opened her fen, 
Those dark juices working 
Him to a saint's kept body, 


Trove of the turfcutters' 
Honeycombed workings. 
Now his stained face 
Reposes at Aarhus. 


II 

I could risk blasphemy, 

Consecrate the cauldron bog 
Our holy ground and pray 
Him to make germinate 


The scattered, ambushed 
Flesh of labourers, 
Stockinged corpses 
Laid out in the farmyards, 


Tell-tale skin and teeth 
Flecking the sleepers 
Of four young brothers, trailed 
For miles along the lines. 


III 

Something of his sad freedom 
As he rode the tumbril 
Should come to me, driving, 
Saying the names 


Tollund, Grauballe, Nebelgard, 

Watching the pointing hands 
Of country people, 
Not knowing their tongue. 


Out here in Jutland 
In the old man-killing parishes 
I will feel lost, 
Unhappy and at home. 


Seamus Heaney, "The Tollund Man". 

Petrovna. Delon.




Outono Escaldante (1972), de Valerio Zurlini.

as lovers, with closed eyes and lamps in fingers and... mouth

Faz-se luz pelo processo 
de eliminação de sombras 
Ora as sombras existem 
as sombras têm exaustiva vida própria 
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela 
intensamente amantes    loucamente amadas 
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta 
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem 

Por outro lado a sombra dita a luz 
não ilumina    realmente    os objectos 
os objectos vivem às escuras 
numa perpétua aurora surrealista 
com a qual não podemos contactar 
senão como amantes 
de olhos fechados 
e lâmpadas nos dedos e na boca.



Mário Cesariny, "Faz-se Luz", in Pena Capital.  

domingo, 25 de agosto de 2013

In the frightened heart of me


















A Noite da Iguana (1964), John Huston. 


Nonno's Poem:

How calmly does the olive branch
Observe the sky begin to blanch
Without a cry, without a prayer
With no betrayal of despair

Some time while light obscures the tree
The zenith of its life will be
Gone past forever
And from thence
A second history will commence

A chronicle no longer gold
A bargaining with mist and mold
And finally the broken stem
The plummeting to earth, and then

And intercourse not well designed
For beings of a golden kind
Whose native green must arch above
The earth's obscene corrupting love

And still the ripe fruit and the branch
Observe the sky begin to blanch
Without a cry, without a prayer
With no betrayal of despair

Oh courage! Could you not as well
Select a second place to dwell
Not only in that golden tree
But in the frightened heart of me

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

...tal qual aqueles que se mexem somente quando se cansam de estar cansados.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

The Leaves Turn Yellow

O, they are such charming people
If you'll leave them well alone
While they're fighting to recover
What has never been their own. 

(Song Of The Commissioner Of Police)

Bertolt Brecht, Threepenny Novel, Book Two "The Murder of the Shoopkeeper Mary Sawyer", chap.11, Penguin Modern Classics, 1964, p.211.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

First you must learn how to smile as you kill


As soon as you're born they make you feel small
By giving you no time instead of it all
Till the pain is so big you feel nothing at all
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be
They hurt you at home and they hit you at school
They hate you if you're clever and they despise a fool
Till you're so fucking crazy you can't follow their rules
(...)
When they've tortured and scared you for twenty odd years
Then they expect you to pick a career
When you can't really function you're so full of fear

do cinema interminável

Porque há coisas que não passam impunes e porque o cinema de Angelopoulos é certamente uma delas, volta e meia surge uma necessidade incontrolável de o revisitar. Assim, deixo aqui a minha crítica ao filme Paisagem na Neblina, do realizador grego, publicada no Jornal Tribuna, no espaço Opinião Directores,  em Dezembro de 2012, que pode ser visto aqui.

"Esta história nunca acaba"

"No início, era a escuridão", inicia Voula em Paisagem na Neblina a história que conta a Alexander, seu irmão mais novo, sem nunca a conseguir terminar. E assim, interminável, será também o cinema de Theo Angelopoulos, realizador grego sobre quem vos escrevo: cineasta do tempo e da procura, mais do que isso, do limite - ora da História, ora do Homem (e ainda da História no Homem).


Paisagem na Neblina, filme que data de 1988 e que se insere na segunda trilogia de Angelopoulos, "A trilogia do silêncio", representando este o terceiro dos silêncios: o silêncio de Deus, antecedido pelo silêncio do Amor e pelo silêncio da História, traz-nos uma imagem. Duas crianças, os irmãos Voula e Alexander, encontram-se numa estação de comboios, observando estáticos a partida de um comboio - aquele que se dirige à Alemanha, aqui país e sonho, onde acreditam que o pai que nunca conheceram vive. Até ao dia em que a indeclinável necessidade de submeter a inactividade ao movimento impera e partem rumo à descoberta, seja do Mundo, seja de si mesmos. "É uma viagem de iniciação à vida. No caminho eles aprendem tudo - o amor e a morte, a mentira e a verdade, a beleza e a destruição. A viagem é simplesmente uma forma de nos concentramos no que a vida a todos nós dá", reiterou Angelopoulos a propósito do filme. 
Efectivamente existem traços transversais no cinema de Angelopoulos que permitem reconhecer qualquer obra como sua tornando-as inconfundíveis, sendo ainda essa transversalidade entre histórias, personagens e espaços um desses mesmos traços característicos. E regressando à viagem na busca constante pela descoberta, tão própria no seu cinema (Mastroianni em O Apicultor viaja para Sul na procura de um lugar redentor, após ser caracterizado como representante de uma geração perdida; em O Olhar de Ulisses procura-se o cinema perdido) facilmente percebemos o porquê de as crianças saírem para procurar um pai perdido num mundo desconhecido. E não se trata tão-somente de fazer aqui uma referência (ainda que também!) autobiográfica - o pai de Angelopoulos desapareceu durante a guerra civil grega, tendo-o este procurado junto dos cadáveres de mão dada com a sua mãe infindáveis vezes, regressando a casa após três dias fugido, para descobrir que pertencia agora a uma geração perdida e errante para quem a ideia de lar no próprio país se afigurava como mito (será ele O Apicultor? - Note-se a importância da História e, mais ainda, do efeito da História nas vidas individuais, tal como na sua, na obra do realizador. À História não haverá como fugir, sobressaindo no seu cinema personagens marcados pela sua história pessoal que se encontra tão veemente ligada à História do século XX na Europa, ainda que em simultâneo se exalte no e através do seu cinema um passado grego mais longínquo: o da filosofia e o da poesia. Será esse o seu legado).





Na verdade, envoltos em cenários inexoráveis, invernos rigorosos e abandonados pela gigante mão-estátua, que se eleva do mar e à qual falta o dedo indicador, a pardacentas praias e a desamparados lugares à beira-estrada, descobrem não só um país onde a melancolia cobriu a existência e o Homem se cansou de viver - a neve cai, as pessoas permanecem imóveis -; ou onde o cinema e ainda talvez as artes dramáticas que outrora os gregos tão bem conheceram não mais têm um papel (e veja-se a crítica na boca de Orestis, que não gosta de funerais) - os actores de "Os Actores Ambulantes" regressam aqui mas, agora que o tempo passou e sem palco onde actuar, vendem as roupas no cais, em jeito de funeral, enquanto relembram o passado: o que resta (deles, da arte, da Grécia?); ou o fotograma do cinema perdido que está vazio porque nele não conseguem ou querem ver nada.


Mais do que isso, as duas crianças desvendam os seus próprios limites. Os delas, os do ser humano, os da existência talvez. As fronteiras? Pois está claro! Como, depois de tamanha odisseia, chegar à Alemanha sem um passaporte? (E sobre a questão das fronteiras no cinema do realizador grego, veja-se impreterivelmente O Passo Suspenso da Cegonha). Serão aqui e ali as fronteiras físicas, que inconsistentemente dividem os homens mas, mais ainda, as fronteiras impalpáveis, que se colocam entre a vida e a morte, entre o diálogo e entre as ideias. Aquelas que Angelopoulos viu em cada um de nós como limites de nós próprios, que não permitem que se alcance determinado lugar, embora haja uma imutável e constante vontade de não estar limitado. Importará tentar. Talvez ele próprio o tenha tentado através do seu cinema e talvez o tenha mesmo conseguido, depois de uma travessia numa barca pelo meio da neblina, extravasando fronteiras e entrando numa dimensão onírica que certamente terá existência, pelo menos no campo da poesia. Ambíguo? Decididamente, mas nem tudo num filme necessita de uma boa explicação. Angelopoulos já o descreveu, chamou-lhe "ambiguidade do real no cinema", que não pode nunca deixar de existir, ou não só não haveria cinema, como deixaríamos ainda de ter a poesia - e, acima de tudo, a poesia no cinema!


Theo Angelopoulos morreu, após ser atropelado por uma mota durante as filmagens de uma quarta trilogia, em Janeiro de 2012. Agora que 2012 termina, e porque não será um texto que lhe fará jus, fique-se com o seu cinema, fique-se com a sua poesia. Vejam e, acreditem, valerá a pena!  

sábado, 10 de agosto de 2013

Parce que ça silence et moteur et coupez



Jacquot de Nantes (1991), de Agnès Varda.


"Parce que j'aime ça
Parce que ça bouge
Pacre que ça vit
Parce que ça pleure
Parce que ça rit
Parce q'au ciné
On est dans le noir
On est au chaud
Entre un mec qui vous fait du genou
Et une nana qui entiève le sien
Devant un con qui part trop fort
Derrièrre un génie aux cheveux ébouriffés
Qui vous êmpeche de lire les sous-titres
Parce que ça danse
Parce que ça chante
Alors je plane
Parce que c'est beau
Parce que filmer c'est comme une femme
C'est comme un homme
Ça peut faire mal
Ça vous écorche
C'est parfois moche
Mais c'est bien quand meme
Parce que ça zoom
Parce que ça travelling
Parce que ça silence et moteur et coupez
Parce qu'on reve
À vingt-quatre images seconde
Et que par conséquent ça fonce dans la nuit
À quatre-vingt six mille quatre cents images à l'heure
Et que le TGV en crève de jalousie
Parce que c'est blanc
Parce que c'est noir et bien d'autres choses encore
Parce que j'aime ça
Et parce que je ne sais rien faire d'autre."

Pourquoi je filme?, Jacques Demy.

"All the music that is from the people is what people are about"


'Let me tell you something,' said Cannonball Adderley.'I don't believe in segregated jazz. That is to say, I don't think you just have to have a jazz radio programme, or a special jazz show on television. I don't believe that that any kind of music has to be set aside unto itself.
'The reason there is a small market for jazz, a small market for chamber music, is because everybody categorises everything - that's a Western passion, pigeonholing and putting things into niches. I think everything belongs together. All the music that is from the people is what people are about'
The great alto and soprano saxophonist was relaxing in his dressing room after giving a stupendous performance with his quintet at the Opposite Lock, a small club in a side street not far from the city centre in Birmingham. 'We did a TV programme in London, and there was a bit of drama, a bit of comedy, some classical music by Ralph Vaughan Williams, there was poetry, and there was us. I don't see why it shouldn't always be like that.

O texto é daqui

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Callisto, de ninfa a urso



Andrea Schiavone, Jupiter seducing Callisto, about 1550, The National Gallery. 

"On s'engage et puis on voit."

'Oh! But it's raining outside!'
'Oh! But the house is on fire, don't forget!
Rather than be burn alive
Let's go out and get wet!' 
          
(SONG OF THE YOUNG PIONEERS)

Bertolt Brecht, Threepenny Novel, Book Two "The Shoopkeeper Mary Sawyer", chap.8, Penguin Modern Classics, 1964, p.139.

domingo, 4 de agosto de 2013

A bigger splash ou do meu Verão


Enquanto começam a aparecer as fotografias do Verão de toda a malta por Portugal na praia, em bikini, bem expostas no facebook, aqui fica uma imagem do meu Verão. Divirtam-se! 


Hockney, A bigger splash, 1967. No Tate Gallery, em Londres.  

na verdade, o que importa?

[...] e, em termos alegóricos, Timofey Semyonitch tinha razão quando dizia que eu estava deitado como um cão. Mas vou provar que mesmo estando deitado como um cão, não, que apenas estando pousado como um cepo, podemos revolucionar o destino da humanidade. Todas as grandes ideias e movimentos patentes nos nossos jornais e revistas foram sem dúvida obra de homens que estavam pousados como cepos; é por isso que dizem que são alheados das realidades da vida, mas o que importa se disserem isso?!


Fiódor Dostoievski, O Crocodilo, Estrofes & Versos, 1ª ed., 2010, p.62.