sábado, 22 de junho de 2013

do amigo do Gorki

"Agarrei na caneta e dispus-me a iniciar um capítulo. Parecia, porém, que a minha mão era uma rã presa por um fio. Roçava o papel e feria-o, parava e inclinava-se de irreprimível forma para traçar letras disformes, crispadas e carecidas de sentido; que não me faziam gritar, é certo, mas esfriavam e esmoreciam, tornavam-me consciente de uma terrível verdade. A minha mão saltava no papel brilhante e os dedos tremiam, presas de um horror igual ao outro, da guerra, entre fogo e sangue, queixumes e sofrimentos que não se descrevem. Sentia os meus dedos separarem-se de mim, dotados de vida própria, transformados em orelhas e olhos, a tremerem para lá do absurdo. E desanimado,  sem forças para gritar ou mesmo reagir, a olhá-los naquela dança bárbara que executavam no papel imaculado, ainda por escrever."

Leonid Andreiev, Riso Vermelho, Editorial Estampa, 1988, p. 85.

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