quinta-feira, 27 de junho de 2013

da gigante literatura e d' "O Grande Tédio"

Hans Castorp, em conversa com o sr. Paravant, admirador de números e ainda do mistério de pi, também ele paciente no Berghof, lá na Montanha Mágica:
 
"O infeliz dirigiu-se também a Hans Castorp, uma primeira vez, e depois muitas vezes, porque encontrara neste uma simpatia amistosa pelo mistério do círculo. O promotor demonstrava ao jovem o beco sem saída de «pi», por meio de um desenho muito exacto, onde, com extremo esforço, a circunferência de um círculo estava traçada entre dois polígonos de inúmeros lados minúsculos, um inscrito e outro circunscrito, com o máximo de aproximação a que um homem pode chegar. Porém, o resto, a curva que de um modo etéreo e espiritual se esquivava à racionalização e ao cálculo, este resto - dizia Paravant com a maxila inferior a tremer - este resto era pi! Hans Castorp, apesar de toda a sua afabilidade, mostrava menos interesse por pi do que pelo interlocutor. Disse que aquilo não passava de uma quimera. Aconselhou o sr. Paravant a que não se inflamasse em excesso com aquela busca e, falou-lhe dos pontos de inflexão, sem extensão, de que se compunha o círculo, desde o seu início inexistente até o seu fim que também não existia, bem como da soberba melancolia que se manifestava nessa eternidade, a qual, sem nunca guardar um rumo constante, voltava sempre ao ponto de partida, e falou de tudo isso com uma devoção tão calma que exerceu passageiramente uma certa influência sedativa sobre o sr. Paravant."
 
 
Thomas Mann, A Montanha Mágica, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, p. 661.  
 

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