sábado, 29 de junho de 2013

um dia também vou a Hamburgo


Pelo menos para ver se vejo esta obra-prima de Friedrich,  Der Wanderer über dem Nebelmeer (1918), no Kunsthalle Hamburg.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

da gigante literatura e d' "O Grande Tédio"

Hans Castorp, em conversa com o sr. Paravant, admirador de números e ainda do mistério de pi, também ele paciente no Berghof, lá na Montanha Mágica:
 
"O infeliz dirigiu-se também a Hans Castorp, uma primeira vez, e depois muitas vezes, porque encontrara neste uma simpatia amistosa pelo mistério do círculo. O promotor demonstrava ao jovem o beco sem saída de «pi», por meio de um desenho muito exacto, onde, com extremo esforço, a circunferência de um círculo estava traçada entre dois polígonos de inúmeros lados minúsculos, um inscrito e outro circunscrito, com o máximo de aproximação a que um homem pode chegar. Porém, o resto, a curva que de um modo etéreo e espiritual se esquivava à racionalização e ao cálculo, este resto - dizia Paravant com a maxila inferior a tremer - este resto era pi! Hans Castorp, apesar de toda a sua afabilidade, mostrava menos interesse por pi do que pelo interlocutor. Disse que aquilo não passava de uma quimera. Aconselhou o sr. Paravant a que não se inflamasse em excesso com aquela busca e, falou-lhe dos pontos de inflexão, sem extensão, de que se compunha o círculo, desde o seu início inexistente até o seu fim que também não existia, bem como da soberba melancolia que se manifestava nessa eternidade, a qual, sem nunca guardar um rumo constante, voltava sempre ao ponto de partida, e falou de tudo isso com uma devoção tão calma que exerceu passageiramente uma certa influência sedativa sobre o sr. Paravant."
 
 
Thomas Mann, A Montanha Mágica, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, p. 661.  
 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Depois de todo este tempo, começámos bem, caro Lucílio!

"Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era subtraído, que te fugia das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.
Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida é pretérita é já domínio da morte!
Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia e hoje dependerás menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando."
 
 
Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, 2ª edição, Livro I (Cartas 1-12), p.1.

sábado, 22 de junho de 2013

de quem um dia disse "The Revolution Will Not Be Televised"

 

"Running", álbum I'm New Here (2010), do regresso (e também despedida, parece-me), de Gil Scott-Heron.


"Because I always feel like running
Not away, because there is no such place
Because, if there was I would have found it by now
Because it's easier to run,
Easier than staying and finding out you're the only one...who didn't run
Because running will be the way your life and mine will be described
As in "the long run"
Or as in having given someone a "run for his money"
Or as in "running out of time"
Because running makes me look like everyone else, though I hope there will ever be cause for that
Because I will be running in the other direction, not running for cover
Because if I knew where cover was, I would stay there and never have to run for it
Not running for my life, because I have to be running for something of more value to be running and not in fear
Because the thing I fear cannot be escaped, eluded, avoided, hidden from, protected from, gotten away from,
Not without showing the fear as I see it now
Because closer, clearer, no sir, nearer
Because of you and because of that nice
That you quietly, quickly be causing
And because you're going to see me run soon and because you're going to know why I'm running then
You'll know then
Because I'm not going to tell you now"

do amigo do Gorki

"Agarrei na caneta e dispus-me a iniciar um capítulo. Parecia, porém, que a minha mão era uma rã presa por um fio. Roçava o papel e feria-o, parava e inclinava-se de irreprimível forma para traçar letras disformes, crispadas e carecidas de sentido; que não me faziam gritar, é certo, mas esfriavam e esmoreciam, tornavam-me consciente de uma terrível verdade. A minha mão saltava no papel brilhante e os dedos tremiam, presas de um horror igual ao outro, da guerra, entre fogo e sangue, queixumes e sofrimentos que não se descrevem. Sentia os meus dedos separarem-se de mim, dotados de vida própria, transformados em orelhas e olhos, a tremerem para lá do absurdo. E desanimado,  sem forças para gritar ou mesmo reagir, a olhá-los naquela dança bárbara que executavam no papel imaculado, ainda por escrever."

Leonid Andreiev, Riso Vermelho, Editorial Estampa, 1988, p. 85.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Cansaço (dentro do teu espaço)

Mais de um ano decorrido sobre o fabuloso concerto de Kolme, trio de jazz formado por Ruben Alves (piano, glockenspiel, harmonium), Miguel Amado (double bass) e Carlos Miguel (drums, percussion), ainda me lembro das palavras finais de Carlos Miguel, que nos presenteou com uma excepcional performance na bateria, onde até os pratos subitamente se transformaram em baquetas. "Fomos poucos (estaríamos cerca de dez pessoas na plateia que, ainda assim, vibrou), mas hoje, aqui, fez-se música. Nós e vós. Muito obrigado." Ora essa, quem agradece sou eu! 
 
 

 
"Cansaço (dentro do teu espaço)", álbum Kolme (2012). Kolme-trio. 

sobre um filme que anseio por ver

Abbas Kiarostami sobre o seu mais recente filme, Like Someone in Love.
 
"Geoff Andrew: You've said that each of your films arises from its prodecessor. How does this relate to Certified Copy?
 
Abbas Kiarostami: Well, of course, it's not that conscious or deliberate but there's a moment when Akiko stands looking at the painting and talks about it; that reminded me that in Certified Copy there was a moment when Williem [Shimell] and Juliette [Binoche] stand together and discuss a paiting. And in a way that's where you get my manifesto about art.
I was pleased to find the painting for this film because I wanted to haave something Akiko ant Watanabe could discuss - something that wasn't just trivial like the weather - before moving on to the main subject. It's quite an important painting, because it was the first time a traditional Japanese subject had been painted in oils using Western techniques. So it's a combination of East and West. It's important to look around you and see what else is out there. For exemple, I have my roots in Iran but I don't want to look only at my roots; one's own culture can be like a prision. So I've looked to other cultures, including the West, for philosophy and art. More than that: the only thing that continues to excite me as a filmmaker is to be able to do something different, to keep on experimenting and doing something which is new and fresh, even if it shocks or surprises others - or myself.(...)"
 
 
in Sight & Sound, July 2013, Vol. 23, Issue 7, p.43.

coisas engraçadas

...ouvir a minha irmã de quase dezasseis anos, enquanto observava cada foto de cada miúdo do livro do seu infantário, comentar a propósito de um rapazito com quem andara na sala dos cinco anos: "este sempre foi estranho, do género cientista. Nunca percebi bem o que queria da vida!"

"Não recuperável!"

Hoje reli o livro que marcou os meus quinze anos: As Mãos Sujas, de Jean-Paul Sartre. Deixando de lado qualquer interpretação existencialista da obra (o que, veja-se bem, é já deixar de lado muita coisa), e deixando de lado qualquer interpretação existencialista destas curtas linhas (não queremos, por agora, enveredar por tais espinhosos caminhos), resta-nos a feição mais política da obra. Em tempos de eleições, vendo alguns que para mim desde logo se afiguraram como ilustres vultos cair em vergonhosas tentações ou apercebendo-me ainda da agigantada abrangência das conhecidas 'Jotas', quais modeladores de pensamentos e ideias e caminhos fáceis para fazer política barata, repito para mim a frase que vi sair dos lábios de "Hugo, gritando: Não recuperável!". Correndo sérios riscos de errar nesta perigosa adaptação da obra aos tempos que correm, concluo apenas que depois de todos estes anos decorridos da minha primeira leitura de As Mãos Sujas, nada ou pouco mudou. Talvez tenha já nascido assim, insensata (?).

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Charlotte Rampling

 

Os Malditos (1969), de Luchino Visconti

Sobre o filme escreveram-se/escrever-se-ão Tratados. Porém, e por agora, fica só a lindíssima Charlotte Rampling.

de Cripple Crow a Mala: haja Devendra!

"(...) Mas agora, depois do ensaio de algo maior (mas que resultou num feito menor) que representou a sua estreia num catálogo de multinacional com What Will We Be (de 2009) eis que chega ao espaço da muito recomendável Nonesuch (casa de nomes como os Wilco, Laurie Anderson ou o compositor John Adams) com aquele que é talvez o seu melhor disco desde Cripple Crow, o álbum de 2005 no qual encetou o processo de descoberta de novos caminhos de que este disco representa o melhor e mais coerente esforço até à data. Tal como temos acompanhado nos seus discos mais recente, Devendra Banhart junta agora a uma escrita cuidada e inspirada um olhar que não se fecha numa rota única, o aparente desnorte que se projeta ao longo do alinhamento acabando aqui, mais que nos discos anteriores, por gerar uma magnífica coleção de canções que, mais que pelas formas, se ligam entre si pela forma de celebrar o amor e o tom “ligeiro” e luminoso com que cantam os apaixonados. (...)"
O texto é de Nuno Galopim, e pode ser lido aqui.
 
 
 
"Never Seen Such Good Things", álbum Mala (2013). Devendra Banhart 
 
 
 
"I Feel Just Like a Child", álbum Cripple Crow (2005), Devendra Banhart

segunda-feira, 17 de junho de 2013

rendez-vous




Les rendez-vous d'Anna (1978), de Chantal Akerman

nas bancas!

O nº 32 do Jornal Tribuna já está nas bancas (leia-se: na internet também). É só ver aqui.

sobre a Turquia, por Elif Mendos (e da amizade também)

Uma amiga turca, Elif Mendos, escreveu-me este texto para que o pudesse publicar na página do Jornal Tribuna. Trata-se de um texto sobre o preocupante paradigma actualmente vivido em Istambul, mas é ainda um texto de uma querida amiga que, durante algum tempo, se passeou comigo pelas ruas do Porto, me ensinou algumas coisas sobre o seu país (que anseio por visitar) e que me deixa já incontáveis saudades.  

"By now, many things have been told about what is going on in Turkey. Referring to Arab spring, “Turkish Spring” they said or a clash of Islamic identity versus secular identity, or as in government supported media tried to show violent attacks to police by a bunch of “provocateurs”. Whatever has been trying to be labeled, the core claim of Turkish people in fact revolve more around increasingly authoritarian government pursued by Prime Minister Erdoğan's AKP (Justice and Development Party).


In brief it all started with a peaceful sit-in to prevent the last green piece of Istanbul in the center of Taksim Square, where the biggest historical, economical and cultural meeting point is. People wanted to prevent the destruction of Gezi Park and its transformation into a shopping mall. The redevelopment of Taksim Square, including the destruction of where the movement all started in -Gezi Park, was another capitalist urban development project. It run through unaccountable processes and was only in favor of the AKP. This project, like many others, leaved no voice for the citizens although it was shaping the urban environment they live in. This redevelopment project included demolishing of a symbol of local business Inci Pastry House in December 2012, followed by a destruction of Emek Theater (an independent cinema operation since 1924 and home to Istanbul Film Festival). Also the destruction of port areas of Karaköy, Beşiktaş, Kadıköy; the uprooting of up to 2.5 million trees for the construction of a widely unpopular third bridge across the Bosphoros are other “fall out from the sky” projects. In fact, over the past decades, as part of its urban modernization program, the AKP has been ripping down almost all historic and green sites while serving this places in the interest of domestic and foreign businessmen.


These all leaded us to todays. Now it was the turn of Gezi Park. Another public space had to be turned into an arena for private profit. On May 28, the day that municipal officers responsible for destruction arrived, people started a peaceful sit-in to not to give up on what left as an only green space, were in the park There were only a group of fifty protesters. On May 31 many people including journalists, parlimanters joined this peaceful sit-in in the park. They were reading books, camping, singing the Beatles underneath that tree they were protecting. And in the early hours of 31th of May the police attacked, burning the tents, using tear gas bombs, water cannons...This was a milestone when the protest crossed the political barriers. You do not have to be a leftist, rightist, secularist, Islamist to care about the environment, to care about the future generation. And yet, this is not just about uprroting of trees. It is about privatization of public space, turning the urban center a depoliticized and desocialized place. So by means of changing the urban place, forcing people to change themselves to a depolitic, desocialized rabble never opposing to the government.
The resistance that has spreaded to whole country was an accumulation of incidents. In the general elections of 2011 the AKP was reelected and this was stated as a “victory”. However from the time they were first elected in 2002 their records has been filled up with jailing of journalists, academics and students untill today. Their other governmental policies caused mass destructions on Turkey's democratic standards. Many journalists have been fired from the media companies wheneever they questioned the actions of the government. A book by Ahmet Şık, who was injured in the head by the excessive use of force by the police during #occupygezi resistance, was collected before its publication and the electronic copy of the draft was destroyed. The list continues to the Turkish Air Force's mass slaughter thirty-four villagers in Uludere/Roboski region of Turkey in December 2010, attacks in the southern town of Reyhanlı in which 52 people died, lipstick ban for stewardness in Turkish Airlines, a new strict alcohol law.... With all of these incidents, it was becoming clearer that the toleration of democratic mechanisms is not well developed. PM Erdoğan's and ruling party's view of democracy is a majoritarian dictatorship validated with election in every five years. For its 11 year old governance, the AKP has lacked of any tolerance to opposed ideas. As on May 29, the statement by PM Erdoğan referring to #occupygezi resistance “we have made our decision and we will implement it; you cannot do anything about it”, was the cause of this lack of tolerance.
As I wrote this, in 5th of June, the resistance is in its 9th day. People in Turkey got used to the tear gas that has been covering the sky lately. They now become professionals on how to fit the effects of tear gas, how to paralyze the water cannon. Most importantly people resisted with only flesh and bones, holding on the human dignity and their rights. Many videos and photos that taken by those unarmed people in the streets are the evidence of the massive violence. The more the police used excessive force, the more people marched in the streets in all country to support the resistance. Unlike what PM Erdoğan calls as “provocatuers”, those people are unarmed civilians. With this movement people not only overcome their fear to the authority and also to the “other”. It has been a long issue of the AKP government to polarised the public as “activist”, “terrorists”, “alcoholics”, “nationalist”. But now everyone is regardless of who they are, struggling arm to arm for the sake of freedom, democracy and to stop the ignorance of the AKP for 11 years. Tragically, the mass media in Turkey are all controlled by the government. This oppression by the government is the main reason of media censorship. The media companies are hiding this public masses in Turkey. While mass violence by the police was occuring outside, they showed gourmet programmes, documentaries about penguins or even ironically a documentary about Hitler. Since they only broadcast to serve the government, they mention this civil unrest as a violence against police and the demonstrators as violators. As the mass media keeps to be blindfolded to what has been going on in the streets, the only communication source is the social media. The useful tactical informations can only be exchanged via Facebook or Twitter.
This is not a movement of political parties or institutions. This is a movement of people. Also this is not about religion, not for a name of god. People are protesting throughout Turkey for the sake of freedom, humanity, existence and green places. Gezi Park is a symbol of government's understanding of power. We are not looters or extremists. We are students, teachers, workers, mothers, fathers. We represent various etnicities and creeds, religions and ideologies. We are now united because of our mutual concern for Turkey's future. We demand an end to police violence. We demand a free and unbiased media. We demand an open dialogue.
At the rock bottom this resistance is all for “To live! As a tree alone and like a forest in brotherhood.” (Nazım Hikmet Ran)"