sábado, 25 de maio de 2013

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Não queria necessariamente evocar influências de outros cineastas, porque penso que já falou disso várias vezes. Mas de um ponto de vista pessoal, há dois cineastas que me tocam muito: François Truffaut e Eric Rohmer. Não acho que queira corresponder a uma herança, mas julgo que os sentimentos que vivem nos filmes destes dois realizadores encontram-se também nos seus, começando por uma grande sensação de liberdade. Ou seja, um olhar de uma grande ternura sobre as personagens, as suas acções e as suas dúvidas, e a maneira como vê o cinema como o lugar ideal para mostrar esse olhar sobre a vida. Um olhar muito honesto e que vem de uma aprendizagem, julgo eu, que tenha tido no seu percurso. As suas personagens e os sentimentos que estão nos seus filmes, deste modo, não se encontram presos a uma narração ou mecanismo tremendamente específico.
 
É um assunto muito vasto e acaba por ser difícil responder a todas as pistas que lança. Sei que há muitos lugares por onde gostaria de ir responder, é uma discussão sem fim. Como em todos os cineastas, existem realizadores dos quais me sinto mais próxima e que me marcaram. Escrevo todos os meus filmes sozinha e trata-se mesmo de fechar a porta e entrar em mim mesma, procurando uma verdade que seja minha. Isso implica não me ficar numa limitação – a de ficar com os cineastas que admiro -, pois o que admiro neles é precisamente a sua independência de espírito, de terem inventado a sua própria linguagem e de como mergulharam naquilo que eram para fazer os seus filmes. Foi isso que me serviu de modelo: não tanto o conteúdo dos filmes, mas a maneira de fazer cinema. Truffaut e Rohmer são e sempre foram cineastas extremamente importantes para mim, mesmo antes de querer fazer filmes. Ficam num canto da minha cabeça, mas nunca são cineastas que eu gostaria de imitar. Gosto deles apenas por aquilo que eram, pela maneira de fazer cinema e de escrever, pela integridade de cada um. Trabalharam na coerência da sua obra como um conjunto, na maneira como ela fazia um todo, e não apenas filme a filme. A escrita, o sentido das palavras, assim como fazer filmes, são coisas intimamente ligadas, e é tudo isso que fica. E depois existem, claro, filmes em particular dos quais me sinto próxima.
Quanto à liberdade, escrevo na tentativa de ter sempre em mente, como prioridade, a busca de uma verdade, e que se os filmes têm poesia, ela virá daí. E se essa verdade existe, a liberdade virá com ela. Mas nunca é algo que reivindico de forma ostensiva, pois isso é algo que não gosto de ver nos filmes – a forma como surge um radicalismo pregado a um filme, por exemplo. A liberdade não é isso. Se procuramos uma forma de verdade, ela terá de existir de forma implícita. No cinema, como na literatura, os arquétipos pesam tanto que, quando tentamos escapar a isso, conseguimos chegar a uma forma de verdade, e dá-me sempre prazer que alguém veja isso nos meus filmes. São filmes que, na sua aparência, são introvertidos, podem ter algo de muito clássico, mas no fundo, espero que estejam ligados a uma tradição mais próxima da modernidade.
 
Entrevista a Mia Hansen-Løve, por Francisco Valente. Daqui.

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