terça-feira, 30 de abril de 2013

CINEdrio: O futuro da Cinemateca: que direcção?

CINEdrio: O futuro da Cinemateca: que direcção?

Ouvir numa das sessões do indie na cinemateca dizer-se, no final de uma apresentação elogiosa à secção director's cut, "e esperamos assim estar cá para o ano (silêncio) haja indielisboa (silêncio) e haja ainda cinemateca". Depois leio isto e arrepio-me dos pés à cabeça.
 
 
 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

da contradição

Há coisas que não passam simplesmente assim, impunes. E há ainda coisas que, assim, não passam. Esta li-a em finais de Janeiro, talvez fosse já Fevereiro, por aí! A verdade é que há coisas que não passam impunes: assim ou assim ou assim pouco importa. Não passam e, pelo contrário, impõem-se. Esta (aquela ali demarcada) impôs-se-me e ainda bate.


"(...) não posso prestar-me à crença tradicional que postula por natureza um divórcio entre a objectividade do sábio e a subjectividade do escritor, como se um dotado de uma «liberdade» e o outro de uma «vocação», ambas próprias a escamotear ou a sublimar os limites reais da sua situação: reclamo o direito de viver plenamente a contradição do meu próprio tempo, que pode fazer dum sarcasmo a condição da verdade."


Roland Barthes, Mitologias, Edições 70, 2007, p.54

terça-feira, 23 de abril de 2013

A única desculpa de Deus é que não existe


Nietzsche, num capítulo intitulado de Por Que Sou Tão Inteligente, depois de deliberadamente tentar destruir o intelecto alemão afirmando, por exemplo, que Taine foi prejudicado pela leitura de Hegel, "a quem tem de agradecer a sua falta de compreensão dos grandes homens e das grandes épocas" ou ainda que "Onde chega a Alemanha, a cultura fica corrompida", e de sublinhar a sua clara preferência pelo francês, chega a Stendhal. "Stendhal, um dos mais belos acidentes da minha vida - pois tudo o que na minha existência fez época me foi trazido pelo acaso e não por recomendação(...). Talvez até eu tenha inveja de Stendhal. Roubou-me a melhor tirada ateia jocosa que eu poderia ter pronunciado: « A única desculpa de Deus é que não existe»... Eu próprio disse algures: «Qual foi, até agora, a maior objecção à existência? Deus...».
 
 
Friedrich Nietzsche, Ecce Homo, Como se chega a ser o que se é, Publicações Europa-América, 1987, p. 68.
 
 
A bomba foi lançada, agora matem-se uns aos outros. Julgo que será mais ou menos isso.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O problema das gerações, sempre o problema das gerações

 


Aqui, na Regra do Jogo, de Jean Renoir e em 1939, depois de toda a trama, o general que por lá se passeava, observando uma ou outra coisa, acaba por afirmar que o problema, a causa de toda aquela confusão - da qual não chega a perceber grande coisa, mas isso afinal pouco importa -, a causa/problema estaria no exacto facto de àquela geração ter sempre sido permitido atravessar na passadeira, com todas as ilações e consequências que daí (da expressão "atravessar na passadeira") facilmente se retiram.


Hoje, no Le Monde diplomatique, edição portuguesa, II série, nº 77, Março de 2013, num artigo intitulado de A França deve sair da Aliança Atlântica, Régis Debray a dada altura escreve "A geração actual tem a memória curta e nunca apanhou pancada. Cresceu dentro de uma bolha protectora e atravessa sempre na passadeira. E vê-se perante a obrigação de ser simpática. Os desmancha-prazeres nunca são simpáticos."


Mas, afinal, de que geração/gerações andamos todos por aí a falar? Aqui e ali e, de resto, em todo o lado e a qualquer momento, lá vem a expressão: esta geração...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

dos de(s) e dos da(s)

Da palavra ao gesto, a cada vez que destoam, vai uma torpe distância, que não é somente uma distância de verdade - ela é dotada de factual existência -, mas que é essencialmente a distância da verdade. Falaste, e então?

Rocco Rocco Rocco

 
 
 

 
 
 

 
 
 
 
 
 
 




Rocco e i suoi fratelli, 1960, de Visconti.

Hoje acordei e ainda estou atarantada com tudo isto.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

You can do nothing and be nothing but what I will infold you

Enough! enough! enough!
Somehow I have been stunn'd. Stand back!
Give me a little time beyond my cuff'd head, slumbers, dreams, gaping,
I discover myself on the verge of a usual mistake.

That I could forget the mockers and insults!
That I could forget the trickling tears and the blows of the bludgeons and hammers!
That I could look with a separate look on my own crucifixion and bloody crowning.

I remember now,
I resume the overstaid fraction,
The grave of rock multiplies what has been confided to it, or to any graves,
Corpses rise, gashes heal, fastenings roll from me.

(...)

Eleves, I salute you! come forward!
Continue your annotations, continue your questionings.

(...)

Behold, I do not give lectures or a little charity,
When I give I give myself.

You there, impotente, loose in the knees,
Open your scarf'd chops till I blow grit within you,
Spread your palms and lift the flaps of your pockets,
I am not to be denied, I compel, I have stores plenty and to spare,
And any thing I have I bestow.

I do not ask who you are, that is not important to me,
You can do nothing and be nothing but what I will infold you.

(...)

This day before dawn I ascended a hill and look'd at the crowded heaven,
And I said to my spirit When we become the enfolders of those orbs, and the pleasure of knowledge of every thing in them, shall we be fill'd and satisfied then?

And my spirit said No, we but level that lift to pass and continue beyond.

You are also asking me questions and I hear you,
I answer that I cannot answer, you must find out for yourself.

(...)

Canto de Mim Mesmo, Walt Whitman, BI.045 - excertos entre a p. 104 e a p. 130.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Todos têm as suas razões



Ali a partir dos 11 minutos, mais coisa, menos coisa, é que o filme começa. Pelo menos começa a valer. André Jurieux, um aviador que havia feito um voo extraordinário, depois de perceber que a mulher que ama não estava no aeroporto para o receber (e desolado com isso), viaja de carro com Octave (Jean Renoir) - que é também a sua ligação directa com a sua amada -, até que têm um acidente. Uma imagem: o campo, apenas (tentei encontra-la para aqui a deixar, mas em vão). E de seguida surgem eles, em conversa desenfreada.

A questão, pelo menos a mais importante, é: Jurieux, que podia ter assumido, aquando da aterragem, o papel de herói nacional, opta por se lamentar, perante todos e ao microfone, a ausência daquela que ama. Ele, que podia ser, naquele exacto momento, tudo, opta por não ser nada. Como se as pessoas (e o amor) andassem por aí sem rumo, a anularem-se umas às outras; como se ninguém tivesse valor apenas pelo que é. E sublinho: como se. Mas pois está claro: ele ama-a e, tal como ele, outros tantos se amam e se amarão (e deixarão de amar) em linhas cruzadas ao longo do filme. E assim, porque "o pior de tudo na vida é que todos têm as suas razões", e as razões de todos são e serão sempre a mesma, aquela, ninguém ali chega, de facto, a ser alguma coisa.


A Regra do Jogo, Jean Renoir, 1939

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Tudo se gasta

Dos sentidos; ou dos sentimentos - sei lá!

"- Eu sei o que isso é. A pessoa procura esquecer, mas não dá resultado. O que tem a fazer é, pelo contrário, acolher com amabilidade os pensamentos desagradáveis.
- Que diz você, Mike?
- Lembre-se de tudo quanto possa, do princípio até ao fim. De cada vez que isso chegue, faça a mesma coisa, sem nada omitir. Depressa tudo se gasta, desaparecendo aos bocados, até nada ficar. Experimentei, e deu resultado."

o inverno do nosso descontentamento, John Steinbeck, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, p. 105

quarta-feira, 3 de abril de 2013

É já amanhã!

 
 
Vem para aqui um bocadinho atrasado, mas importa que chegue. De qualquer forma, a programação seguirá, a partir de amanhã, dia 4 de Abril, tal como planeado. Quanto ao resto das explicações, encontram-nas aqui.
 
Até lá e Bons Filmes!
 


segunda-feira, 1 de abril de 2013

ainda a partir de Godard

O próprio teria afirmado "Faz parte da regra querer a morte da excepção".

Da família humana

Numa carta aberta a Hubert Védrine sobre a saída da França da OTAN, Régis Debray escreve:

 "Sentimentalmente, faço parte da família francófona; sinto mais afinidades com um argelino, um marroquino, um vietnamita ou um malgaxe do que com um albanês, um dinamarquês ou um turco (membros estes três da OTAN). Culturalmente, faço parte da família latina (Mediterrâneo e América do Sul). Filosoficamente, da família humana. Porque deveria eu fechar-me numa única família?"

in Le Monde Diplomatique, Régis Debray, edição portuguesa, Março 2013, p. 37

Naturalmente, o artigo, suficientemente extenso e inteligente para não deixar grandes dúvidas, tem muito mais que se lhe diga. Porém, por hoje, aqui fica apenas isto.