quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

"O Velho do Restelo"

"La vérité de la vérité est ce qui, en réalité, s'est passé."
 
 
Entretien avec Manoel de Oliveira, Cahiers du Cinéma, nº 694, Novembre 2013.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Two Lovers

Quando o amor idealizado, que só para quem o idealiza parece, de facto, possível, dá, num esforço pela vida, lugar a um outro, mais frágil e menos absoluto e, por isso mesmo, mais real. Ainda assim, - que desilusão.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

oh Philip

 
Insensivelmente contraíra o mais delicioso hábito do mundo, o hábito da leitura: ignorava que construira assim um refúgio para as amarguras da vida; ignorava também que criava um mundo irreal que transformaria o mundo real quotidiano numa fonte de cruéis decepções.
 
Somerset  Maugham, Servidão Humana, p. 31.
 
 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

le désir de jouer

En général je choisis des acteurs pour qui jouer est une passion fondamentale, un choix. Qui s'interrogent sur leur désir de jouer.
[Et le masque...]
C'est plus général, c'est le masque que porte chacun dans la vie.

Abdellatif Kechiche, Cahiers du Cinéma, Octobre 2013, nº 693.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

ele é o Homem Eterno

 
"(...)Este anonimato da burguesia torna-se ainda mais espesso quando se passa da cultura burguesa propriamente dita às suas formas alargadas, vulgarizadas, utilizadas, àquilo que se poderia chamar a filosofia pública, que alimenta a moral quotidiana, os cerimoniais civis, os ritos profanos, numa palavra, as normas não escritas da vida de relação na sociedade burguesa. É uma ilusão reduzir a cultura dominante ao seu núcleo inventivo: há também uma cultura burguesa de puro consumo. Toda a França mergulha nesta ideologia anónima: a nossa imprensa, o nosso cinema, o nosso teatro, a nossa literatura de uso geral, os nossos cerimoniais, a nossa justiça, a nossa diplomacia, as nossas conversações, o tempo que faz, o crime que se julga, o casamente em que nos comovemos, a cozinha com que se sonha, o vestuário que se traz, tudo, na nossa vida quotidiana, é tributário da representação que a burguesia tem e nos faz ter das relações do homem com o mundo. Estas formas «normalizadas» atraem pouco as atenções, na proporção mesma da sua extensão; a sua origem pode nelas perder-se à vontade; elas gozam de uma posição intermediária: não sendo nem directamente políticas, nem directamente ideológicas, vivem em paz entre a acção dos militares e o contencioso dos intelectuais; mais ou menos por uns e outros, elas ganham a massa enorme do indiferenciado, do insignificante, em resumo, da natureza. É, todavia, através da sua ética que a França é penetrada pela burguesia: praticadas nacionalmente, as normas burguesas são vividas como as leis evidentes de uma ordem natural: quanto mais a classe burguesa propaga as duas representações, mais elas se naturalizam. O facto burguês absorve-se num universo indistinto, cujo único habitante é o Homem Eterno, nem proletário, nem burguês."
 
Roland Barthes, Mitologias, «O mito, hoje», de Setembro de 1956.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

ao que ele responde: e com a vida?

São 3:41h da manhã e dou por mim a pensar na Monica Vitti, linda de tirar o fôlego, a dizer algo como "what do people expect me to do with my eyes?". E, certamente, não é assim que se consegue adormecer.

And here's a man still working for your smile

 


I tried to leave you, I don't deny
I closed the book on us, at least a hundred times.
I'd wake up every morning by your side.

The years go by, you lose your pride.
The baby's crying, so you do not go outside,
and all your work it's right before your eyes.

Goodnight, my darling, I hope you're satisfied,
the bed is kind of narrow, but my arms are open wide.
And here's a man still working for your smile.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.
 
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, p.73.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

"um caso subterrâneo"

"É um homem que, devido à sua terrível clarividência, sinceridade e incapacidade para se harmonizar com o mundo, se vê condenado ao ascetismo".
 
Agustina disse-o sobre Kafka, em Kafkiana. Pergunto-me, no entanto, se não o poderia ter dito de tantos outros de nós. Ou, se quisermos, se não será exactamente devido à imediata identificação entre aquilo que se pronunciou sobre um homem, aquele, assim que retirado do seu contexto inicial, e aquilo que poderia ser pronunciado sobre tantos outros, que Kafka falou, nada mais, nada menos, de todos nós, das nossas inquietações numa realidade caracterizada pela derradeira e incontornável ausência de um Deus.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

da sociedade dos símbolos abstractos

"(...)Frente a tanta miséria, esta arte, se quer continuar a ser um luxo, terá que aceitar, no dia de hoje, ser também uma mentira.
De facto, de que poderia ela falar? Se se conforma com o que a nossa sociedade, na sua maioria, pede, será divertimento sem alcance. Se cegamente a rejeita, se o artista decide isolar-se no seu sonho, não exprimirá mais do que uma recusa. Teremos, assim, uma produção, ou de graciosos ou de gramáticos da forma, o que, em ambos os casos, dará em resultado uma arte divorciada da realidade viva. Desde há mais ou menos um século que vivemos numa sociedade que nem sequer é a sociedade do dinheiro (a prata ou o oiro podem suscitar paixões carnais), mas a dos símbolos abstractos do dinheiro. A sociedade dos negociantes pode definir-se como uma sociedade na qual as coisas desaparecem em proveito dos signos. Quando uma classe dirigente avalia as suas riquezas, já não pelo hectare de terra nem pelo lingote de oiro mas pelo número de cifras que idealmente correspondem a um certo número de operações de câmbio, dedica-se ao mesmo tempo a pôr uma certa espécie de mistificação como centro da sua experiencia e do seu universo. Uma sociedade fundada nos signos é, na sua essência, uma sociedade artificial em que a realidade carnal do homem se acha mistificada. Ninguém então se admirará de que essa sociedade tenha escolhido, para dela fazer a sua religião, uma moral de princípios formais, e de que grave as palavras liberdade e igualdade tanto nas suas prisões como nos seus templos financeiros. Entretanto, não é impunemente que se prostituem as palavras. O valor hoje mais caluniado é certamente o valor da liberdade. Bons espíritos (sempre pensei que havia duas espécies de inteligência, a inteligência inteligente e a inteligência estúpida) fazem doutrina de ela não ser senão um obstáculo ao verdadeiro progresso. Mas se disparates tão solenes puderam ser proferidos foi porque, durante cem anos, a sociedade negociante fez da liberdade um uso exclusivo e unilateral, considerou-a mais como um direito do que como um dever e não receou pôr, tão frequentemente quanto pôde, uma liberdade de princípio ao serviço de uma opressão de facto. Por conseguinte, que há de surpreendente se essa sociedade não pediu à arte que fosse um instrumento de libertação mas um exercício sem grandes consequências e um simples divertimento?(...)"
 
 
Albert Camus no seu discurso na Conferência «O Artista e O Seu Tempo», na Universidade de Upsala, em 1957.

sábado, 26 de outubro de 2013

se se é novo

"O seu passo miúdo apressa-se: amanhã tudo vai mudar, amanhã. De repente descobre que o amanhã será semelhante, e depois de amanhã, todos o outros dias. E a irremediável descoberta esmaga-o. São ideias como esta que nos fazem morrer. Há quem se mate por não poder suportá-las - ou, se se é novo, fazem-se frases a seu respeito."
 
 
Albert Camus, O Avesso e o Direito, "A Ironia", Edição «Livros do Brasil» Lisboa, p.41.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

um verdadeiro bico-de-obra

"«Nenhum artista pintará o seu quadro, nenhum general ganhará a vitória, nenhuma nação atingirá a liberdade» sem esse horizonte, sem amar o que faz «muito mais infinitamente do que isso mereça ser amado».
Mas é precisamente a nossa consciência histórica que torna esse amor impossível. A história ensina-nos que houve no passado uma infinidade de horizontes - civilizações, religiões, códigos éticos, «sistemas de valores». Os povos que os possuíam, faltando-lhe a nossa moderna consciência histórica, acreditavam que o seu horizonte era o único possível. Aqueles que vivem na idade avançada deste processo, aqueles que vivem na idade avançada da humanidade, não podem ter uma visão tão pouco crítica. A educação moderna, essa educação universal absolutamente essencial para preparar as sociedades para o moderno mundo económico, liberta os homens das suas amarras à tradição e à autoridade. Eles sabem que o seu horizonte é apenas isso, não a terra firme, mas uma miragem que desaparece com a aproximação, dando lugar a um outro horizonte. É por isso que o homem moderno é o último homem, exausto pela experiência da história e desenganado quanto à possibilidade de uma experiência directa de valores.
Por outras palavras, a educação moderna estimula uma certa apetência para o relativismo, isto é, para a doutrina que enuncia que todos os sistemas de valores são relativos ao tempo e ao lugar, não sendo nenhum deles verdadeiro, mas sim reflexo de preconceitos ou interesses dos seus proponentes. A doutrina que sustenta não existirem perspectivas privilegiadas ajusta-se lindamente ao desejo do homem democrático de acreditar que o seu modo de vida é tão bom como qualquer outro. Neste contexto, o relativismo não leva à libertação dos grandes e poderosos, mas dos medíocres, a quem é agora dito que nada têm de que se envergonhar."
 
Fukuyama, Francis, O Fim Da História E O Último Homem, gradiva, 1ª ed., p. 296-297.

dos grandes discursos

 


This Land Is Mine (1943), de Jean Renoir.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

back to the 80's

 
"Soul Mining", do álbum Soul Mining, 1983, by The The.
 
 
Something always goes wrong
When things are going right
You've swallowed your pride
To quell the pain inside
Someone captured your heart
Like a thief in the night
And squeezed all the juice out
Until it ran dry

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

não lhe pediríamos tanto


Audrey

 

A escolher, teria certamente de concordar com Jacques Doniol-Valcroze, quando a dada altura afirmou, a propósito de fascínios com actrizes, "Audrey Hepburn, c’est moi".

terça-feira, 1 de outubro de 2013

deliciem-se

 


O Cineclube FDUP volta a oferecer cinema pela rua dos Bragas. É só espreitar ali ao lado.

enfado ado ado ado

"Existem pessoas para as quais o que de mais valioso têm na vida é alguma doença do corpo ou da alma. Passam pela vida com essa doença e só vivem através dela; sofrendo, alimentam-se dela, queixam-se dela aos outros e, assim, atraem a atenção dos amigos. Obtêm a compreensão dos outros e, excepto isso, mais nada têm. Tirem-lhes essa doença, curem-nas e elas tornar-se-ão infelizes, porque lhes faltará o seu único meio de vida - tornar-se-ão vazias. Por vezes, a vida de um homem é tão vazia que ele se vê constrangido a valorizar o seu defeito e viver através dele, sendo possível dizer que muitas vezes os homens se tornam maus apenas por enfado."
 
 
Máximo Gorki, vinte e seis e mais uma, Estrofes & Versos, 1ª ed., Setembro de 2010, p. 26.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Vai, Vai Virgem Pela Segunda Vez






Vai, Vai Virgem Pela Segunda Vez (1969), de Kôji Wakamatsu.


 "A cor em Wakamatsu sinaliza amiúde o trauma e o trauma é frequentemente sinalizado pelo sexo. Ele e ela tornam-se cúmplices mais que amigos, porque, como vamos percebendo, nenhum dos dois acredita na amizade, tal como nenhum dos três – e já estou aqui a incluir o realizador, Kôji Wakamatsu – acredita verdadeiramente no amor. É preciso dar um salto, “sair do filme”, para que uma relação – mais que uma cinzenta cumplicidade – se possa gerar entre os dois. A vingança acontece sem sentimento de vingança, porque isso – o “sentimento” – implicava esperança em qualquer coisa, pelo que Vai, Vai Virgem… também não é uma obra sobre um crime e o seu payback moral. Quer dizer, usando aqui uma terminologia barthesiana, dir-se-ia que o seu studium talvez se reduza a isso, mas o seu punctum reside por inteiro no último plano em que ela e ele estão juntos, estendidos na estrada, apenas separados por um traço contínuo que, numa linguagem de descodificação simbólica, diríamos que representa o tempo, “aquilo ” que o casal – e a sua “força revolucionária” terá sido essa – conseguiu romper além-vida."
 
O texto é daqui.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

de Vico e do Anticartesianismo

"(...) atacou o pressuposto cartesiano de que o critério da verdade é a ideia clara e distinta. Salientou que, efectivamente, este não passava de um critério subjectivo ou psicológico. O facto de eu considerar as minhas ideias claras e distintas só prova que eu acredito nelas, mas não prova que são verdadeiras."

Collingwood R. G., A Ideia de História, Editorial Presença, 9ª edição, 2001, p.83.

Tilda Swinton

 

Caravaggio (1986), de Derek Jarman.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

da Irlanda (ii)



Some day I will go to Aarhus 
To see his peat-brown head, 
The mild pods of his eye-lids, 
His pointed skin cap. 


In the flat country near by 
Where they dug him out, 
His last gruel of winter seeds 
Caked in his stomach, 


Naked except for 
The cap, noose and girdle, 
I will stand a long time. 
Bridegroom to the goddess, 


She tightened her torc on him 
And opened her fen, 
Those dark juices working 
Him to a saint's kept body, 


Trove of the turfcutters' 
Honeycombed workings. 
Now his stained face 
Reposes at Aarhus. 


II 

I could risk blasphemy, 

Consecrate the cauldron bog 
Our holy ground and pray 
Him to make germinate 


The scattered, ambushed 
Flesh of labourers, 
Stockinged corpses 
Laid out in the farmyards, 


Tell-tale skin and teeth 
Flecking the sleepers 
Of four young brothers, trailed 
For miles along the lines. 


III 

Something of his sad freedom 
As he rode the tumbril 
Should come to me, driving, 
Saying the names 


Tollund, Grauballe, Nebelgard, 

Watching the pointing hands 
Of country people, 
Not knowing their tongue. 


Out here in Jutland 
In the old man-killing parishes 
I will feel lost, 
Unhappy and at home. 


Seamus Heaney, "The Tollund Man". 

Petrovna. Delon.




Outono Escaldante (1972), de Valerio Zurlini.

as lovers, with closed eyes and lamps in fingers and... mouth

Faz-se luz pelo processo 
de eliminação de sombras 
Ora as sombras existem 
as sombras têm exaustiva vida própria 
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela 
intensamente amantes    loucamente amadas 
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta 
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem 

Por outro lado a sombra dita a luz 
não ilumina    realmente    os objectos 
os objectos vivem às escuras 
numa perpétua aurora surrealista 
com a qual não podemos contactar 
senão como amantes 
de olhos fechados 
e lâmpadas nos dedos e na boca.



Mário Cesariny, "Faz-se Luz", in Pena Capital.  

domingo, 25 de agosto de 2013

In the frightened heart of me


















A Noite da Iguana (1964), John Huston. 


Nonno's Poem:

How calmly does the olive branch
Observe the sky begin to blanch
Without a cry, without a prayer
With no betrayal of despair

Some time while light obscures the tree
The zenith of its life will be
Gone past forever
And from thence
A second history will commence

A chronicle no longer gold
A bargaining with mist and mold
And finally the broken stem
The plummeting to earth, and then

And intercourse not well designed
For beings of a golden kind
Whose native green must arch above
The earth's obscene corrupting love

And still the ripe fruit and the branch
Observe the sky begin to blanch
Without a cry, without a prayer
With no betrayal of despair

Oh courage! Could you not as well
Select a second place to dwell
Not only in that golden tree
But in the frightened heart of me

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

...tal qual aqueles que se mexem somente quando se cansam de estar cansados.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

The Leaves Turn Yellow

O, they are such charming people
If you'll leave them well alone
While they're fighting to recover
What has never been their own. 

(Song Of The Commissioner Of Police)

Bertolt Brecht, Threepenny Novel, Book Two "The Murder of the Shoopkeeper Mary Sawyer", chap.11, Penguin Modern Classics, 1964, p.211.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

First you must learn how to smile as you kill


As soon as you're born they make you feel small
By giving you no time instead of it all
Till the pain is so big you feel nothing at all
A working class hero is something to be
A working class hero is something to be
They hurt you at home and they hit you at school
They hate you if you're clever and they despise a fool
Till you're so fucking crazy you can't follow their rules
(...)
When they've tortured and scared you for twenty odd years
Then they expect you to pick a career
When you can't really function you're so full of fear

do cinema interminável

Porque há coisas que não passam impunes e porque o cinema de Angelopoulos é certamente uma delas, volta e meia surge uma necessidade incontrolável de o revisitar. Assim, deixo aqui a minha crítica ao filme Paisagem na Neblina, do realizador grego, publicada no Jornal Tribuna, no espaço Opinião Directores,  em Dezembro de 2012, que pode ser visto aqui.

"Esta história nunca acaba"

"No início, era a escuridão", inicia Voula em Paisagem na Neblina a história que conta a Alexander, seu irmão mais novo, sem nunca a conseguir terminar. E assim, interminável, será também o cinema de Theo Angelopoulos, realizador grego sobre quem vos escrevo: cineasta do tempo e da procura, mais do que isso, do limite - ora da História, ora do Homem (e ainda da História no Homem).


Paisagem na Neblina, filme que data de 1988 e que se insere na segunda trilogia de Angelopoulos, "A trilogia do silêncio", representando este o terceiro dos silêncios: o silêncio de Deus, antecedido pelo silêncio do Amor e pelo silêncio da História, traz-nos uma imagem. Duas crianças, os irmãos Voula e Alexander, encontram-se numa estação de comboios, observando estáticos a partida de um comboio - aquele que se dirige à Alemanha, aqui país e sonho, onde acreditam que o pai que nunca conheceram vive. Até ao dia em que a indeclinável necessidade de submeter a inactividade ao movimento impera e partem rumo à descoberta, seja do Mundo, seja de si mesmos. "É uma viagem de iniciação à vida. No caminho eles aprendem tudo - o amor e a morte, a mentira e a verdade, a beleza e a destruição. A viagem é simplesmente uma forma de nos concentramos no que a vida a todos nós dá", reiterou Angelopoulos a propósito do filme. 
Efectivamente existem traços transversais no cinema de Angelopoulos que permitem reconhecer qualquer obra como sua tornando-as inconfundíveis, sendo ainda essa transversalidade entre histórias, personagens e espaços um desses mesmos traços característicos. E regressando à viagem na busca constante pela descoberta, tão própria no seu cinema (Mastroianni em O Apicultor viaja para Sul na procura de um lugar redentor, após ser caracterizado como representante de uma geração perdida; em O Olhar de Ulisses procura-se o cinema perdido) facilmente percebemos o porquê de as crianças saírem para procurar um pai perdido num mundo desconhecido. E não se trata tão-somente de fazer aqui uma referência (ainda que também!) autobiográfica - o pai de Angelopoulos desapareceu durante a guerra civil grega, tendo-o este procurado junto dos cadáveres de mão dada com a sua mãe infindáveis vezes, regressando a casa após três dias fugido, para descobrir que pertencia agora a uma geração perdida e errante para quem a ideia de lar no próprio país se afigurava como mito (será ele O Apicultor? - Note-se a importância da História e, mais ainda, do efeito da História nas vidas individuais, tal como na sua, na obra do realizador. À História não haverá como fugir, sobressaindo no seu cinema personagens marcados pela sua história pessoal que se encontra tão veemente ligada à História do século XX na Europa, ainda que em simultâneo se exalte no e através do seu cinema um passado grego mais longínquo: o da filosofia e o da poesia. Será esse o seu legado).





Na verdade, envoltos em cenários inexoráveis, invernos rigorosos e abandonados pela gigante mão-estátua, que se eleva do mar e à qual falta o dedo indicador, a pardacentas praias e a desamparados lugares à beira-estrada, descobrem não só um país onde a melancolia cobriu a existência e o Homem se cansou de viver - a neve cai, as pessoas permanecem imóveis -; ou onde o cinema e ainda talvez as artes dramáticas que outrora os gregos tão bem conheceram não mais têm um papel (e veja-se a crítica na boca de Orestis, que não gosta de funerais) - os actores de "Os Actores Ambulantes" regressam aqui mas, agora que o tempo passou e sem palco onde actuar, vendem as roupas no cais, em jeito de funeral, enquanto relembram o passado: o que resta (deles, da arte, da Grécia?); ou o fotograma do cinema perdido que está vazio porque nele não conseguem ou querem ver nada.


Mais do que isso, as duas crianças desvendam os seus próprios limites. Os delas, os do ser humano, os da existência talvez. As fronteiras? Pois está claro! Como, depois de tamanha odisseia, chegar à Alemanha sem um passaporte? (E sobre a questão das fronteiras no cinema do realizador grego, veja-se impreterivelmente O Passo Suspenso da Cegonha). Serão aqui e ali as fronteiras físicas, que inconsistentemente dividem os homens mas, mais ainda, as fronteiras impalpáveis, que se colocam entre a vida e a morte, entre o diálogo e entre as ideias. Aquelas que Angelopoulos viu em cada um de nós como limites de nós próprios, que não permitem que se alcance determinado lugar, embora haja uma imutável e constante vontade de não estar limitado. Importará tentar. Talvez ele próprio o tenha tentado através do seu cinema e talvez o tenha mesmo conseguido, depois de uma travessia numa barca pelo meio da neblina, extravasando fronteiras e entrando numa dimensão onírica que certamente terá existência, pelo menos no campo da poesia. Ambíguo? Decididamente, mas nem tudo num filme necessita de uma boa explicação. Angelopoulos já o descreveu, chamou-lhe "ambiguidade do real no cinema", que não pode nunca deixar de existir, ou não só não haveria cinema, como deixaríamos ainda de ter a poesia - e, acima de tudo, a poesia no cinema!


Theo Angelopoulos morreu, após ser atropelado por uma mota durante as filmagens de uma quarta trilogia, em Janeiro de 2012. Agora que 2012 termina, e porque não será um texto que lhe fará jus, fique-se com o seu cinema, fique-se com a sua poesia. Vejam e, acreditem, valerá a pena!  

sábado, 10 de agosto de 2013

Parce que ça silence et moteur et coupez



Jacquot de Nantes (1991), de Agnès Varda.


"Parce que j'aime ça
Parce que ça bouge
Pacre que ça vit
Parce que ça pleure
Parce que ça rit
Parce q'au ciné
On est dans le noir
On est au chaud
Entre un mec qui vous fait du genou
Et une nana qui entiève le sien
Devant un con qui part trop fort
Derrièrre un génie aux cheveux ébouriffés
Qui vous êmpeche de lire les sous-titres
Parce que ça danse
Parce que ça chante
Alors je plane
Parce que c'est beau
Parce que filmer c'est comme une femme
C'est comme un homme
Ça peut faire mal
Ça vous écorche
C'est parfois moche
Mais c'est bien quand meme
Parce que ça zoom
Parce que ça travelling
Parce que ça silence et moteur et coupez
Parce qu'on reve
À vingt-quatre images seconde
Et que par conséquent ça fonce dans la nuit
À quatre-vingt six mille quatre cents images à l'heure
Et que le TGV en crève de jalousie
Parce que c'est blanc
Parce que c'est noir et bien d'autres choses encore
Parce que j'aime ça
Et parce que je ne sais rien faire d'autre."

Pourquoi je filme?, Jacques Demy.

"All the music that is from the people is what people are about"


'Let me tell you something,' said Cannonball Adderley.'I don't believe in segregated jazz. That is to say, I don't think you just have to have a jazz radio programme, or a special jazz show on television. I don't believe that that any kind of music has to be set aside unto itself.
'The reason there is a small market for jazz, a small market for chamber music, is because everybody categorises everything - that's a Western passion, pigeonholing and putting things into niches. I think everything belongs together. All the music that is from the people is what people are about'
The great alto and soprano saxophonist was relaxing in his dressing room after giving a stupendous performance with his quintet at the Opposite Lock, a small club in a side street not far from the city centre in Birmingham. 'We did a TV programme in London, and there was a bit of drama, a bit of comedy, some classical music by Ralph Vaughan Williams, there was poetry, and there was us. I don't see why it shouldn't always be like that.

O texto é daqui

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Callisto, de ninfa a urso



Andrea Schiavone, Jupiter seducing Callisto, about 1550, The National Gallery. 

"On s'engage et puis on voit."

'Oh! But it's raining outside!'
'Oh! But the house is on fire, don't forget!
Rather than be burn alive
Let's go out and get wet!' 
          
(SONG OF THE YOUNG PIONEERS)

Bertolt Brecht, Threepenny Novel, Book Two "The Shoopkeeper Mary Sawyer", chap.8, Penguin Modern Classics, 1964, p.139.

domingo, 4 de agosto de 2013

A bigger splash ou do meu Verão


Enquanto começam a aparecer as fotografias do Verão de toda a malta por Portugal na praia, em bikini, bem expostas no facebook, aqui fica uma imagem do meu Verão. Divirtam-se! 


Hockney, A bigger splash, 1967. No Tate Gallery, em Londres.  

na verdade, o que importa?

[...] e, em termos alegóricos, Timofey Semyonitch tinha razão quando dizia que eu estava deitado como um cão. Mas vou provar que mesmo estando deitado como um cão, não, que apenas estando pousado como um cepo, podemos revolucionar o destino da humanidade. Todas as grandes ideias e movimentos patentes nos nossos jornais e revistas foram sem dúvida obra de homens que estavam pousados como cepos; é por isso que dizem que são alheados das realidades da vida, mas o que importa se disserem isso?!


Fiódor Dostoievski, O Crocodilo, Estrofes & Versos, 1ª ed., 2010, p.62.

domingo, 28 de julho de 2013

The Survivor

"For he was intending to beg, and he was ashamed. He was not ashamed of having had a bullet in the leg, nor of having bought a public house that didn't pay, but because he was reduced to asking complete strangers for money. In his opinion no one owed him anything. 
Begging came hard to him. It is the profession for those who have learned nothing; only it seemed that even this business had to be learned. He spoke to several people one after another, but with a courageous expression on his face, and taking care not to stand in people's way so that they should not feel that they were being pestered. Also, he chose rather long sentences that were only completed when this person was a long way past; neither did he hold out his hand. And so, by the fifth time that he had humiliated himself, scarcely anyone had noticed that he was begging." 


Bertolt Brecht, Threepenny Novel, Penguin Modern Classics, p.8. 

domingo, 21 de julho de 2013

esperar

Uma pessoa continua porque espera chegar a algum lugar melhor do que este. Mas o pior é que é esta espera que mata. E assim se continua esperando, enquanto se mantém a esperança que, na verdade, sabe-se lá bem se nos faz aqui continuar ou avançar. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

The Electric side of Freddie Hubbard



Ku-Umba and Frank Lacy, The Electric side of Freddie Hubbard 1/2.
Live at JAZZ A VIENNE festival 2009. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Silver Fishes

Hoje, enquanto me passeava pelo Tate Modern Museum, estremeci, entre muitas outras obras colossais, com as de Max Ernst. 


Celebes (1921), Max Ernst.



The Entire City (1934), Max Ernst.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Tu n'as rien vu à Hiroshima...






Hiroshima, mon amour (1959), de Alain Resnais

Life



"Life", álbum The Last Time I Did Acid I Went Insane and other favorites (2001), Jeffrey Lewis.

do desejo de admiração de Séneca, ou da necessidade de reconhecimento, de Nietzsche

"A primeira coisa que a filosofia nos garante é o senso comum, a humanidade, o espírito de comunidade, coisas de cuja prática nos afastará uma vida demasiado diferente. Deve-mos precaver-nos, não  vão os nossos actos, que desejamos merecedores de admiração, tornar-se antes ridículos e odiosos.
[...] A filosofia exige frugalidade, não suplícios, e a frugalidade não necessita de ser desordenada."

Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, 2ª edição, Livro I (Cartas 1-12), p.11.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Para lá das colinas



Para lá das colinas (2012), de Cristian Mungiu.

 
"Com a chegada de Alina (Cristiana Flutur), vinda da Alemanha ao mosteiro romeno “para lá das colinas” para buscar a sua amiga, Voichita (Cosmina Stratan), Mungiu enceta uma certa ambição bressoniana que coloca em oposição o amor (expresso pelo corpo) e o sagrado (expresso pela alma). Não deixa de ser curioso que Bresson não tenha trabalhado esta dupla dimensão como conflito, antes como  passagem, talvez sinal de decadentismo: da crença espiritual [Les anges du péché (Os Anjos do Pecado, 1943)], passando pela doença misteriosa da fé com expressão no corpo [Journal d’un curé de campagne (Diário dum Pároco de Aldeia, 1951)], até ao poder da mão em Pickpocket (O Carteirista, 1959); até que prescinde quase desta em detrimento do que ela faz circular: o dinheiro, era o capital (L’argent (O Dinheiro, 1983)]. Seja como for, em Dupa dealuri, essa oposição está viva e é ela que opera a resistência de Voichita a partir com a amiga, querendo manter-se na comunidade sob a protecção espiritual do padre (a quem todas tratam por pai) e, do outro lado, a prova de amor de Alina, que “quer colocar Deus à força dentro dela” para poder ficar com a amiga."
 
O texto é daqui.

sábado, 29 de junho de 2013

um dia também vou a Hamburgo


Pelo menos para ver se vejo esta obra-prima de Friedrich,  Der Wanderer über dem Nebelmeer (1918), no Kunsthalle Hamburg.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

da gigante literatura e d' "O Grande Tédio"

Hans Castorp, em conversa com o sr. Paravant, admirador de números e ainda do mistério de pi, também ele paciente no Berghof, lá na Montanha Mágica:
 
"O infeliz dirigiu-se também a Hans Castorp, uma primeira vez, e depois muitas vezes, porque encontrara neste uma simpatia amistosa pelo mistério do círculo. O promotor demonstrava ao jovem o beco sem saída de «pi», por meio de um desenho muito exacto, onde, com extremo esforço, a circunferência de um círculo estava traçada entre dois polígonos de inúmeros lados minúsculos, um inscrito e outro circunscrito, com o máximo de aproximação a que um homem pode chegar. Porém, o resto, a curva que de um modo etéreo e espiritual se esquivava à racionalização e ao cálculo, este resto - dizia Paravant com a maxila inferior a tremer - este resto era pi! Hans Castorp, apesar de toda a sua afabilidade, mostrava menos interesse por pi do que pelo interlocutor. Disse que aquilo não passava de uma quimera. Aconselhou o sr. Paravant a que não se inflamasse em excesso com aquela busca e, falou-lhe dos pontos de inflexão, sem extensão, de que se compunha o círculo, desde o seu início inexistente até o seu fim que também não existia, bem como da soberba melancolia que se manifestava nessa eternidade, a qual, sem nunca guardar um rumo constante, voltava sempre ao ponto de partida, e falou de tudo isso com uma devoção tão calma que exerceu passageiramente uma certa influência sedativa sobre o sr. Paravant."
 
 
Thomas Mann, A Montanha Mágica, Edição «Livros do Brasil» Lisboa, p. 661.  
 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Depois de todo este tempo, começámos bem, caro Lucílio!

"Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era subtraído, que te fugia das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.
Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida é pretérita é já domínio da morte!
Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia e hoje dependerás menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando."
 
 
Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, 2ª edição, Livro I (Cartas 1-12), p.1.

sábado, 22 de junho de 2013

de quem um dia disse "The Revolution Will Not Be Televised"

 

"Running", álbum I'm New Here (2010), do regresso (e também despedida, parece-me), de Gil Scott-Heron.


"Because I always feel like running
Not away, because there is no such place
Because, if there was I would have found it by now
Because it's easier to run,
Easier than staying and finding out you're the only one...who didn't run
Because running will be the way your life and mine will be described
As in "the long run"
Or as in having given someone a "run for his money"
Or as in "running out of time"
Because running makes me look like everyone else, though I hope there will ever be cause for that
Because I will be running in the other direction, not running for cover
Because if I knew where cover was, I would stay there and never have to run for it
Not running for my life, because I have to be running for something of more value to be running and not in fear
Because the thing I fear cannot be escaped, eluded, avoided, hidden from, protected from, gotten away from,
Not without showing the fear as I see it now
Because closer, clearer, no sir, nearer
Because of you and because of that nice
That you quietly, quickly be causing
And because you're going to see me run soon and because you're going to know why I'm running then
You'll know then
Because I'm not going to tell you now"

do amigo do Gorki

"Agarrei na caneta e dispus-me a iniciar um capítulo. Parecia, porém, que a minha mão era uma rã presa por um fio. Roçava o papel e feria-o, parava e inclinava-se de irreprimível forma para traçar letras disformes, crispadas e carecidas de sentido; que não me faziam gritar, é certo, mas esfriavam e esmoreciam, tornavam-me consciente de uma terrível verdade. A minha mão saltava no papel brilhante e os dedos tremiam, presas de um horror igual ao outro, da guerra, entre fogo e sangue, queixumes e sofrimentos que não se descrevem. Sentia os meus dedos separarem-se de mim, dotados de vida própria, transformados em orelhas e olhos, a tremerem para lá do absurdo. E desanimado,  sem forças para gritar ou mesmo reagir, a olhá-los naquela dança bárbara que executavam no papel imaculado, ainda por escrever."

Leonid Andreiev, Riso Vermelho, Editorial Estampa, 1988, p. 85.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Cansaço (dentro do teu espaço)

Mais de um ano decorrido sobre o fabuloso concerto de Kolme, trio de jazz formado por Ruben Alves (piano, glockenspiel, harmonium), Miguel Amado (double bass) e Carlos Miguel (drums, percussion), ainda me lembro das palavras finais de Carlos Miguel, que nos presenteou com uma excepcional performance na bateria, onde até os pratos subitamente se transformaram em baquetas. "Fomos poucos (estaríamos cerca de dez pessoas na plateia que, ainda assim, vibrou), mas hoje, aqui, fez-se música. Nós e vós. Muito obrigado." Ora essa, quem agradece sou eu! 
 
 

 
"Cansaço (dentro do teu espaço)", álbum Kolme (2012). Kolme-trio. 

sobre um filme que anseio por ver

Abbas Kiarostami sobre o seu mais recente filme, Like Someone in Love.
 
"Geoff Andrew: You've said that each of your films arises from its prodecessor. How does this relate to Certified Copy?
 
Abbas Kiarostami: Well, of course, it's not that conscious or deliberate but there's a moment when Akiko stands looking at the painting and talks about it; that reminded me that in Certified Copy there was a moment when Williem [Shimell] and Juliette [Binoche] stand together and discuss a paiting. And in a way that's where you get my manifesto about art.
I was pleased to find the painting for this film because I wanted to haave something Akiko ant Watanabe could discuss - something that wasn't just trivial like the weather - before moving on to the main subject. It's quite an important painting, because it was the first time a traditional Japanese subject had been painted in oils using Western techniques. So it's a combination of East and West. It's important to look around you and see what else is out there. For exemple, I have my roots in Iran but I don't want to look only at my roots; one's own culture can be like a prision. So I've looked to other cultures, including the West, for philosophy and art. More than that: the only thing that continues to excite me as a filmmaker is to be able to do something different, to keep on experimenting and doing something which is new and fresh, even if it shocks or surprises others - or myself.(...)"
 
 
in Sight & Sound, July 2013, Vol. 23, Issue 7, p.43.

coisas engraçadas

...ouvir a minha irmã de quase dezasseis anos, enquanto observava cada foto de cada miúdo do livro do seu infantário, comentar a propósito de um rapazito com quem andara na sala dos cinco anos: "este sempre foi estranho, do género cientista. Nunca percebi bem o que queria da vida!"

"Não recuperável!"

Hoje reli o livro que marcou os meus quinze anos: As Mãos Sujas, de Jean-Paul Sartre. Deixando de lado qualquer interpretação existencialista da obra (o que, veja-se bem, é já deixar de lado muita coisa), e deixando de lado qualquer interpretação existencialista destas curtas linhas (não queremos, por agora, enveredar por tais espinhosos caminhos), resta-nos a feição mais política da obra. Em tempos de eleições, vendo alguns que para mim desde logo se afiguraram como ilustres vultos cair em vergonhosas tentações ou apercebendo-me ainda da agigantada abrangência das conhecidas 'Jotas', quais modeladores de pensamentos e ideias e caminhos fáceis para fazer política barata, repito para mim a frase que vi sair dos lábios de "Hugo, gritando: Não recuperável!". Correndo sérios riscos de errar nesta perigosa adaptação da obra aos tempos que correm, concluo apenas que depois de todos estes anos decorridos da minha primeira leitura de As Mãos Sujas, nada ou pouco mudou. Talvez tenha já nascido assim, insensata (?).

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Charlotte Rampling

 

Os Malditos (1969), de Luchino Visconti

Sobre o filme escreveram-se/escrever-se-ão Tratados. Porém, e por agora, fica só a lindíssima Charlotte Rampling.

de Cripple Crow a Mala: haja Devendra!

"(...) Mas agora, depois do ensaio de algo maior (mas que resultou num feito menor) que representou a sua estreia num catálogo de multinacional com What Will We Be (de 2009) eis que chega ao espaço da muito recomendável Nonesuch (casa de nomes como os Wilco, Laurie Anderson ou o compositor John Adams) com aquele que é talvez o seu melhor disco desde Cripple Crow, o álbum de 2005 no qual encetou o processo de descoberta de novos caminhos de que este disco representa o melhor e mais coerente esforço até à data. Tal como temos acompanhado nos seus discos mais recente, Devendra Banhart junta agora a uma escrita cuidada e inspirada um olhar que não se fecha numa rota única, o aparente desnorte que se projeta ao longo do alinhamento acabando aqui, mais que nos discos anteriores, por gerar uma magnífica coleção de canções que, mais que pelas formas, se ligam entre si pela forma de celebrar o amor e o tom “ligeiro” e luminoso com que cantam os apaixonados. (...)"
O texto é de Nuno Galopim, e pode ser lido aqui.
 
 
 
"Never Seen Such Good Things", álbum Mala (2013). Devendra Banhart 
 
 
 
"I Feel Just Like a Child", álbum Cripple Crow (2005), Devendra Banhart

segunda-feira, 17 de junho de 2013

rendez-vous




Les rendez-vous d'Anna (1978), de Chantal Akerman

nas bancas!

O nº 32 do Jornal Tribuna já está nas bancas (leia-se: na internet também). É só ver aqui.

sobre a Turquia, por Elif Mendos (e da amizade também)

Uma amiga turca, Elif Mendos, escreveu-me este texto para que o pudesse publicar na página do Jornal Tribuna. Trata-se de um texto sobre o preocupante paradigma actualmente vivido em Istambul, mas é ainda um texto de uma querida amiga que, durante algum tempo, se passeou comigo pelas ruas do Porto, me ensinou algumas coisas sobre o seu país (que anseio por visitar) e que me deixa já incontáveis saudades.  

"By now, many things have been told about what is going on in Turkey. Referring to Arab spring, “Turkish Spring” they said or a clash of Islamic identity versus secular identity, or as in government supported media tried to show violent attacks to police by a bunch of “provocateurs”. Whatever has been trying to be labeled, the core claim of Turkish people in fact revolve more around increasingly authoritarian government pursued by Prime Minister Erdoğan's AKP (Justice and Development Party).


In brief it all started with a peaceful sit-in to prevent the last green piece of Istanbul in the center of Taksim Square, where the biggest historical, economical and cultural meeting point is. People wanted to prevent the destruction of Gezi Park and its transformation into a shopping mall. The redevelopment of Taksim Square, including the destruction of where the movement all started in -Gezi Park, was another capitalist urban development project. It run through unaccountable processes and was only in favor of the AKP. This project, like many others, leaved no voice for the citizens although it was shaping the urban environment they live in. This redevelopment project included demolishing of a symbol of local business Inci Pastry House in December 2012, followed by a destruction of Emek Theater (an independent cinema operation since 1924 and home to Istanbul Film Festival). Also the destruction of port areas of Karaköy, Beşiktaş, Kadıköy; the uprooting of up to 2.5 million trees for the construction of a widely unpopular third bridge across the Bosphoros are other “fall out from the sky” projects. In fact, over the past decades, as part of its urban modernization program, the AKP has been ripping down almost all historic and green sites while serving this places in the interest of domestic and foreign businessmen.


These all leaded us to todays. Now it was the turn of Gezi Park. Another public space had to be turned into an arena for private profit. On May 28, the day that municipal officers responsible for destruction arrived, people started a peaceful sit-in to not to give up on what left as an only green space, were in the park There were only a group of fifty protesters. On May 31 many people including journalists, parlimanters joined this peaceful sit-in in the park. They were reading books, camping, singing the Beatles underneath that tree they were protecting. And in the early hours of 31th of May the police attacked, burning the tents, using tear gas bombs, water cannons...This was a milestone when the protest crossed the political barriers. You do not have to be a leftist, rightist, secularist, Islamist to care about the environment, to care about the future generation. And yet, this is not just about uprroting of trees. It is about privatization of public space, turning the urban center a depoliticized and desocialized place. So by means of changing the urban place, forcing people to change themselves to a depolitic, desocialized rabble never opposing to the government.
The resistance that has spreaded to whole country was an accumulation of incidents. In the general elections of 2011 the AKP was reelected and this was stated as a “victory”. However from the time they were first elected in 2002 their records has been filled up with jailing of journalists, academics and students untill today. Their other governmental policies caused mass destructions on Turkey's democratic standards. Many journalists have been fired from the media companies wheneever they questioned the actions of the government. A book by Ahmet Şık, who was injured in the head by the excessive use of force by the police during #occupygezi resistance, was collected before its publication and the electronic copy of the draft was destroyed. The list continues to the Turkish Air Force's mass slaughter thirty-four villagers in Uludere/Roboski region of Turkey in December 2010, attacks in the southern town of Reyhanlı in which 52 people died, lipstick ban for stewardness in Turkish Airlines, a new strict alcohol law.... With all of these incidents, it was becoming clearer that the toleration of democratic mechanisms is not well developed. PM Erdoğan's and ruling party's view of democracy is a majoritarian dictatorship validated with election in every five years. For its 11 year old governance, the AKP has lacked of any tolerance to opposed ideas. As on May 29, the statement by PM Erdoğan referring to #occupygezi resistance “we have made our decision and we will implement it; you cannot do anything about it”, was the cause of this lack of tolerance.
As I wrote this, in 5th of June, the resistance is in its 9th day. People in Turkey got used to the tear gas that has been covering the sky lately. They now become professionals on how to fit the effects of tear gas, how to paralyze the water cannon. Most importantly people resisted with only flesh and bones, holding on the human dignity and their rights. Many videos and photos that taken by those unarmed people in the streets are the evidence of the massive violence. The more the police used excessive force, the more people marched in the streets in all country to support the resistance. Unlike what PM Erdoğan calls as “provocatuers”, those people are unarmed civilians. With this movement people not only overcome their fear to the authority and also to the “other”. It has been a long issue of the AKP government to polarised the public as “activist”, “terrorists”, “alcoholics”, “nationalist”. But now everyone is regardless of who they are, struggling arm to arm for the sake of freedom, democracy and to stop the ignorance of the AKP for 11 years. Tragically, the mass media in Turkey are all controlled by the government. This oppression by the government is the main reason of media censorship. The media companies are hiding this public masses in Turkey. While mass violence by the police was occuring outside, they showed gourmet programmes, documentaries about penguins or even ironically a documentary about Hitler. Since they only broadcast to serve the government, they mention this civil unrest as a violence against police and the demonstrators as violators. As the mass media keeps to be blindfolded to what has been going on in the streets, the only communication source is the social media. The useful tactical informations can only be exchanged via Facebook or Twitter.
This is not a movement of political parties or institutions. This is a movement of people. Also this is not about religion, not for a name of god. People are protesting throughout Turkey for the sake of freedom, humanity, existence and green places. Gezi Park is a symbol of government's understanding of power. We are not looters or extremists. We are students, teachers, workers, mothers, fathers. We represent various etnicities and creeds, religions and ideologies. We are now united because of our mutual concern for Turkey's future. We demand an end to police violence. We demand a free and unbiased media. We demand an open dialogue.
At the rock bottom this resistance is all for “To live! As a tree alone and like a forest in brotherhood.” (Nazım Hikmet Ran)"